A crença na fábula do leitor especial

Postado em deveras pessoais em 12 12America/Sao_Paulo janeiro 12America/Sao_Paulo 2012 por marimessias

Nunca como nos últimos, possivelmente, dois meses, me deparei com tanto preciosismo acerca do ato de ler.

Talvez seja só impressão e as coisas não tenham mudado de Homero pra cá, mas isso me causou certo horror. Especialmente por não vir de pessoas das quais eu esperariam isso (ie, das múmias de Alexandria que praticam a libação em Balzac).

Mais ou menos como aquela lista de “motivos para namorar um menina que goste de livros“, quem defende a superioridade do leitor de livro com relação ao resto do mundo acredita em uma espécie de hellenismo mágico, onde foi tocado e escolhido para participar de algo especial (que, como tal, não é para todos).

Não sei se a sensação tem relação com o fato de eu nunca ter feito parte de nenhum tipo de casta superior (nunca tive esse lance de pertencimento com uma elite qualquer, que te projeta para fora do senso comum ao mesmo tempo que te protege de ver que, bom, nada disso é verdade), mas isso me soa como um tipo de balela bastante cansativa.

Primeiro, a não superficialidade sempre foi uma escolha restrita e nunca esteve relacionada com o tipo de comportamento de consumo com o qual tu te identifica (de livros, de discos, de jogos, de comida, de esportes), mas com a abordagem que tu da para tudo isso e mais um pouco que constitui tua vida. Inclusive com conseguir lidar com a tua insignificância/significância e como ela não está ligada com essas bandeiras identificatórias superfluas, afinal.

Segundo, nunca, em tempo algum, vivemos tanto no texto infinito do Barthes: “quer esse texto seja Proust, ou o jornal diário, ou a tela de televisão: o livro faz o sentido, o sentido faz a vida”.  E trivializar a nossa relação com a leitura não me parece, senão, saudável para os hábitos de consumo de conteúdo. O tipo de conteúdo, o formato de conteúdo, sempre relacionados com preferências e temáticas individuais.

Admito que vejo a criação do texto como parte essencial de quem somos hoje e, paradoxalmente, acho ela totalmente conflitante com a maneira como, cada vez mais, vivemos: rapidez em forma e durabilidade. Por outro lado, isso não é privilégio do texto. As imagens, os meios e os comportamentos sofrem o mesmo.

Se o Junot Diaz, por exemplo, demorou 11 anos para criar o docinho Oscar Wao, que eu consumi em 3 semanas, a Bethesda demorou 5 anos pra fazer o Skyrim que podemos consumir em poucos meses e tu demora 5 anos pra te conseguir um diploma que vai ser inviabilizado na primeira demonstração prática do assunto aprendido, isso não faz de ti um mártir nem um escolhido para lutar contra a corrente da vida moderna. Talvez faça, sei lá, mais alguém que segue o fluxo contemporâneo que há. Mas, pra mim, isso não tem relevância alguma.

Repito: sou incapaz de identificar self (especialmente self mágico) somente baseada nos hábitos de consumo, sejam eles Franzen, twitter ou roupas.

Pra mim, a compreensão dos prismas narrativos religiosos que vivemos também diz respeito a lidar com a inexistência de messianismo. Nem político, nem social. Aka, a diferença, que é essencial e única constante de existir, não precisa ser hierarquizada para ter valor (o único valor relevante sendo, nesse caso, o individual).

E digo tudo isso pq, acima de tudo, vejo a leitura como algo íntimo. Íntimo no sentido de ser privado e não dizer sobre ti mais que o gosto por, digamos, morangos. E íntimo por demandar intimidade no relacionamento com o que tu vai consumir.

Milhões de anos atrás eu postei aqui falando sobre como um curso de dramaturgia salvou temporariamente minha vida acadêmica fracassada como estudante de letras. Acreditava (e ainda acredito) que, por ser de uma família de teatro, nunca consegui compreender (menos ainda achar aceitável/curtir muito uhu) o distanciamento religioso com o qual algumas pessoas da letras (aí inclusos amantes de livros, teóricos, etc) lidam com seu objeto de afeto. Cresci e ainda o faço vendo gente que refocila no lodo com seu autor favorito (do momento ou da vida).

E entre eles estão os leitores mais aprofundados e frequentes que conheço (sejam acadêmicos, teóricos, amantes de livros, gente do tchatro, etc).

Kalói kai agathói só fica bem até 500 A.C.

Então me desculpem, mas endossar ideais de castas não ta pra mim. Acho apenas triste e enfadonho. Curto meus livros como curto meus outros objetos de culto e amor: mundanos.

A clássica retrospectiva

Postado em deveras pessoais, ieieie em 31 31America/Sao_Paulo dezembro 31America/Sao_Paulo 2011 por marimessias

2011 não foi uma festa, definitivamente. Foi um ano bem complicado.

Contrapondo, uma das primeiras lembranças que tenho do ano é massa demais, uma legítima festa. E a última, espero, seja similar.

Até agora, 2011, pra mim, é Mayer Hawthorne e poucos mas bons amigos (os teimosos e eternos). Em 3 canções (e motivos e sentimentos relacionados bem amplos), meu ano:

Feliz 2012, o ano que os Maias farão contato e os deuses serão astronautas. Desejo que os desejos de vocês nunca os decepcionem, que vocês não sintam frio dor ou fome e que nunca cultuem a idéia de que poderia ter sido melhor/diferente (remember Pangloss, o do cabeçalho).

É isso, nos vemos nas quebradas.

Consolo na Praia

Postado em idéia não tem dono em 30 30America/Sao_Paulo novembro 30America/Sao_Paulo 2011 por marimessias

Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

Drummond, um amargo querido

(a imagem é do tumblr Grifei num Livro)

Endings

Postado em idéia não tem dono em 27 27America/Sao_Paulo novembro 27America/Sao_Paulo 2011 por marimessias

Things do not explode,
they fail, they fade,

as sunlight fades from the flesh,
as the foam drains quick in the sand,

even love’s lightning flash
has no thunderous end.

it dies with the sound
of flowers fading like the flesh

from sweating pumice stone,
everything shapes this

till we are left
with the silence that surrounds Beethoven’s head.

Derek Walcott

Os ombros suportam o mundo

Postado em degredo no olimpo, deveras pessoais em 16 16America/Sao_Paulo novembro 16America/Sao_Paulo 2011 por marimessias

AVISO: Esse post será muito pessoal (e hermético, possivelmente), não quer ler, vaza. 

Drummond tem um poema, muito amargo, que chama os ombros suportam o mundo, onde ele fala sobre uma época (ou um momento, como eu prefiro ver) no qual não se ama, não se chora, não se sente falta e sequer adianta morrer. Apenas se é, “a vida é uma ordem”.

Admito que hoje, quando acordei no meio de um sonho e falei alto: nonada, era assim que estava me sentindo. E me senti assim muitas vezes nos últimos meses. Porém, não se preocupem, estou longe de me sentir assim sempre e, acredito, não o farei.

Ocorre que nessa vida somos ensinados a ser (e veja que coisa, somente com sentimentos), mornos. Admito que nunca fui muito dessa vibe, veja bem, minha citação favorita do Apocalipse (3’16) é “Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca”. Mas em algumas situações ainda me sinto condicionada a acreditar que é pouco polido sentir. E falar ganha outro peso. E como nada pode ser feito, apenas se suporta o mundo.

Na verdade, em algumas situações os sentimentos extrapolam-se e tem seu sentido original substituído por algum outro, normalmente pior. Vou tentar explicar melhor o que eu quero dizer.

Logo que eu perdi minha amiga, dois meses atrás, resolvi ler e assistir tudo que parecesse minimamente útil, pra tentar entender e lidar melhor com isso tudo. Revi todo o Six Feet Under (de um jeito bem diferente, btw), li uma série de artigos e livros, mas a única coisa das que eu li que me tocou e que eu relembro todos os dias desde então foi da Joan Didion, sobre o novo livro onde narra a morte da filha. Não achei mais a quote original, mas ela dizia algo como: tudo o que eu li sobre luto era muito polido e esqueceu de comentar que luto parece mais loucura que qualquer sentimento que já tenhamos tido.

Identificar essa loucura em processo foi, pra mim, a melhor maneira de tentar domar a dita. Não esperava nem espero sempre conseguir. Não sou maluca de fato. Espero que o sentimento viva seu fluxo, mas criei uma barragem para ele saber que só pode existir dentro do perímetro especificado.

De toda forma, acho lindo e saudável sentir, externar sentimento, só não estou disposta a cair no chão feito um boneco de pano. E foi assim que tenho medianamente conseguido fazer isso.

E acho que o motivo mais especial para querer isso são as pessoas.

De toda forma, se existe um lado positivo nesses momentos da vida é descobrir, no meio de toda essa desolação, as pessoas. Possivelmente por, como disse o Drummond, não se esperar nada, conseguimos ver as pessoas. E acho que isso passa a ser um norte maior.

Nunca fui das pessoas mais crentes que conheço. Leio livros de Zen pq me fazem sentido. Não acredito em reencarnação, nem em carma como milhagem, acredito em tentar viver com compaixão e omildade. Sem esperar nada, mesmo. O mundo não vai me pagar, não vai *PUFF* ficar massa, mas eu acho que isso é o que falta, especialmente pra minha vida (de-mim-pra-mim-saca). E isso, também, tem relação com as pessoas.

Em alguns momentos fica difícil sequer pensar em qualquer tipo de divindade sem sentir coisas palha. Ou pelas pessoas, essas tolinhas, ou pela suposta divindade, essa pau no cu.

Desculpe, acho complicado quem encontra Zeus, Deus, Eus na miséria.

Mas em todos os momentos, bons ou ruins, é possível pensar como um pouco de capacidade de sair de si, abandonar o embigo, torna/tornaria aquele momento melhor/menos pior.

Try a little tenderness, mesmo.

E, bom, não tenho um final pra esse post, que ele é do ramo das coisas reais e segue acontecendo.

Mas como não curtiria ser uma dessas pessoas que simulam que a vida segue ilesa, mesmo com todo solavanco, também não curtiria que esse blog e minha vida como um todo simulasse estar alheio.  É como disse o Eco, e eu cito pela décima nona vez:

Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota.

Então podscrê, nos vemos nas quebradas.

Os amigos do Oscar Wilde (todos os 3)

Postado em idéia não tem dono com as tags em 7 07America/Sao_Paulo novembro 07America/Sao_Paulo 2011 por marimessias
Crazy & Saints
I choose my friends not by their skin or other archetype, but by the pupil.
They have to have questioning shine and unsettled tone.
I’m not interested in the good spirits or the ones with bad habits.
I’ll stick with the ones that are made of me being crazy and blessed.
From them, I don’t want an answer, I want to be reviewed.
I want them to bring me doubts and fears and to tolerate the worst of me.
But that only being crazy.
I want saints, so they daunt doubt differences and ask for forgiveness for injustices.
I choose my friends for their clean face and their soul exposed.
I don’t just want a man or a skirt, I also want his greatest happiness.
A friend that doesn’t laugh together doesn’t know how to cry together.
All my friends are like that, half foolish, half serious.
I don’t want foreseen laughter or cries full of pity.
I want serious friends, those that make reality their fountain of knowledge, but that fight to keep fantasy alive.
I don’t want adult or boring friends.
I want half kids and half elderly.
Kids, so they don’t forget the value of the wind blowing on their faces and elderly people so they’re never in a hurry.
I have friends to know who I am.
Then seeing them as clowns and serious, crazy and saints, young and old, I will never forget that ‘normalcy’ is a sterile and imbecile illusion.

(Oscar Wilde)

Cantiga de Enganar

Postado em idéia não tem dono com as tags em 31 31America/Sao_Paulo outubro 31America/Sao_Paulo 2011 por marimessias

O mundo não vale o mundo, meu bem.

Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.

O mundo,

meu bem,

não vale

a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê? de mim? ou de nada?
O mundo valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa… e sobe
algum som deste declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de nascentes
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.
Tampouco a respiração
de soldados e de enfermos,
de meninos internados
ou de freiras em clausura.
Não são grupos submergidos
nas geleiras do entressono
e que deixam desprender-se,
menos que simples palavra,
menos que folha no outono,
a partícula sonora
que a vida contém, e a morte
contém, o mero registro
da energia concentrada.
Não é nem isto, nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo ao vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta.
De sofrer e de olvidar,
de lembrar e de fruir,
de escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
façamos , meu bem, de conta
- mas a conta não existe -
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
Façamos mundo: idéias.
Deixemos o mundo aos outros,
já que o querem gastar.
Meu bem, sejamos fortíssimos
- mas a força não existe -
e na mais pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
- mas o tempo não existe -
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o mundo.

Feliz aniversário do Drummond pra todos

Do not stand at my grave and weep

Postado em degredo no olimpo, idéia não tem dono em 23 23America/Sao_Paulo setembro 23America/Sao_Paulo 2011 por marimessias
Do not stand at my grave and weep,
I am not there; I do not sleep.
I am a thousand winds that blow,
I am the diamond glints on snow,
I am the sun on ripened grain,
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning’s hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circling flight.
I am the soft starlight at night.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there; I did not die.
Mary Frye

Reluctance

Postado em idéia não tem dono com as tags em 23 23America/Sao_Paulo julho 23America/Sao_Paulo 2011 por marimessias

Reluctance

Out through the fields and the woods
And over the walls I have wended;
I have climbed the hills of view
And looked at the world, and descended;
I have come by the highway home,
And lo, it is ended.

The leaves are all dead on the ground,
Save those that the oak is keeping
To ravel them one by one
And let them go scraping and creeping
Out over the crusted snow,
When others are sleeping.

And the dead leaves lie huddled and still,
No longer blown hither and thither;
The last lone aster is gone;
The flowers of the witch hazel wither;
The heart is still aching to seek,
But the feet question “Whither?”

Ah, when to the heart of man
Was it ever less than a treason
To go with the drift of things,
To yield with a grace to reason,
And bow and accept the end
Of a love or a season?

Robert Frost

R.I.P. Amy Winehouse

Postado em ieieie, o mundo (essa folia) em 23 23America/Sao_Paulo julho 23America/Sao_Paulo 2011 por marimessias

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