Arquivo para outubro, 2008

A sociedade e as micro estruturas

Posted in deveras pessoais, nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 30 de outubro de 2008 by mari messias

(depois de Onde Está Wally?, Onde está D. Sebastião? – copyright Marx)

Aos 16 anos eu tirei o título de eleitor. Hoje, aos 29 anos, eu voto nulo tem algumas eleições. Aconteceu, no meio do caminho, alguma coisa que me fez deixar de acreditar que era possível mudar radicalmente pra melhor a estrutura geral. Nem foi só a dissolução da esquerda, a catarse coletiva de que os valores são os mesmos pros dois lados (e antes que algum direitista comece a se gabar: estamos todos na mesma merda, mas continua sendo uma merda e eu nem tou pela coprofagia, ta ligado?). Teve algo dentro de mim que MUDOU TUDO quando me confrontei com o randomismo da vida aplicado a pessoinhas lindas.

Isso não quer dizer que eu seja uma pessoa amarga, que não acredite na possibilidade de beleza da vida e no potencial de docilidade humano e nas micro-mudanças que começam conosco (Think Locally, Fuck Globally). Isso é coisa de indie classe média alta que lê poesia inglesa e acha que ta inovando. Rapeize, tenho uma novidade procêis: Brasil, mais de 500 anos dando a bunda pra Inglaterra. Fim da novidade.

Seguindo. Como nós constituímos o grande grupo, não adianta dizer que somos diferentes, somos parte da merda e ajudamos a fazer do dia-a-dia um pedacinho de Saigon. Não quero implicar responsabilidade por não sermos perfeitos. Quero só dizer que tem muito mais gente por aí se achando demais que sendo demais. Claro, se achar demais rende mais prestígio que tentar ser, mas também me dá bem mais no saco.

A atrofia do superego é o motor da nossa sociedade. Sem ela ignoraríamos nomes como Mainardi, Sandy, Fidel, Lula, Bush, ad infinitum.

Acho que é por isso que nossa sociedade aceita tão bem os psicopatas, somos carentes de pessoas que acreditem em si até o ponto da cegueira. Gente que se vende como a terra brasilis das pessoas enquanto nós, desejosos de Messias, Sebastiacas mofados, compramos o que tiver na feira dos salvadores e dos maiorais em geral.

*ai, cansei*

Para um post mais esperançoso, procure Desi aqui.

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MurderBall

Posted in nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 24 de outubro de 2008 by mari messias

Então, aqui estava na noite de inferno astral passando o tempo lendo quando resolvi ver um filme. Fui atraída pelo título, aí em cima, achando que fosse negócio trashera, com sangue de ketchup.

Mas era um documentário demaish sobre rugby de tetraplégicos, conhecido pelo baixo clero como Murderball.

Acontece, meuzamigo, que esse é o esporte mais espartano que eu já vi (nada de fanchonismo, a Esparta ilidíaca, no caso). As cadeiras tem grandes escudos gregos nas laterais das rodas criando um tipo de mini forte. A idéia é claro que é marcar pontos, como num rugby pós-moderno mix futebol americano mix Leônidas mix sei lá o que. A marcação do adversário é feita através do atrito dos grandes escudos, várias vezes levando o exército inimigo ao chão.

Eles se recusam a usar proteção, já quebraram a coluna, argumentam. A tática é evitar bater com a cabeça no chão quando caem, eles dizem. Mas assistindo, nossa, ISSO QUE É DANÇA MODERNA, PORRA.

Claro que eu vi um documentário com as duas melhores seleções do mundo da época que, pra melhorar, tinham um atrito específico entre si, mas santa madre caralha, que esporte roquenrou.

Os dois personagens principais são o Mark Zupan (um ícone pop americano que muitos devem conhecer) e Joe Soares (um português naturalizado americano com motivos pessoais pro fight-sim, a sonoridade do nome é piada pronta). Vale. Abaixo trailer. Virei fã, de boa.

P.S: não se deixe levar pela auto-ajuda do trailer, o negócio aqui é ROQUE.

Wolf3D

Posted in quotes da rapeize on 23 de outubro de 2008 by mari messias

mari: …mas nem faça nada de ruim com ele, ele é uma boa pessoa

marx: eu também

mari: não, ele é na vida real. Não no Doom, não no Wolfenstein.

marx: HAHAHAHAHAHA. CULTURA DE 92.

mari: pior, cara, cultura de video-game de 92, não de vida real.

marx: sim, 92 em video-games equivale a 1500 no mundo real.

mari: poraí, porái. medievalismo é tudo nessa vida.

Livros difíceis

Posted in nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 22 de outubro de 2008 by mari messias

Então eu estava em uma pesquisa que envolvia livros (ie, uhu ducarai véinho) e buscando um texto específico falando do Ulisses eu caí direto num papinho pra lá de século XIX sobre livros difíceis. Que porra são livros difíceis?

Livros costumam ter mais de um nível de apreciação, como chocolates e cervejas. Não somos obrigados por nenhuma regra de polidez ou literatice a engolfar tudo que eles oferecem. Não fazemos isso com mais nada do mundo, por qual motivo achariamos que somos capazes de fazer isso com livros? Como com tudo, nossos níveis de apreciação, nem melhores nem piores, tem relação com nossos caminhos de existência, nossas referências, nossos processos cognitivos, nossas seiláfiadapu.

Com que anus divino cagamos esta tendência ingrata de colocar nossas fontes de prazer entre itens de hierarquização? De boa, eu gosto de conviver com pessoas que leem pq eu prefiro ficção e masturbação mental ao mundo real. Tem gente que prefere música, cerveja, video-game. Cada um cada um, cada dois cada dois.

Não conheci nunca em vida quem tenha ficado se esforçando pra ler. Tipo intestino preso na cabeça. No dia que tivermos que nos esforçar pra ter prazer vamos todos dar um /j frigidazinha_de_acapulco, porra.

Livros são artigos de prazer, como namorados, e nunca devemos nos esquecer disso. Nem com os livros nem com os namorados. Se livros (ou namorados) passam a nos infernizar mais que alegrar ou estamos usando uma abordagem bizarra da vida ou estamos com o livro (ou o namorado) errado.

E pra isso mesmo o mundo produz livros (e namorados) em profusão. Pra que cada pessoa ache seu tipinho e pare de se lamuriar pelo mundo.

O negócio é o seguinte. Nunca leremos todos os livros do mundo, nunca teremos todo o conhecimento que queremos, então pra que indivíduo gastaria seu tempo com grupos de estudo de um negócio que acha chato bagarai e não ENTENDE?

AMIGO, SÉRIO, NÃO.

Entender é pros fracos.

Portal

Posted in deveras pessoais, nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 20 de outubro de 2008 by mari messias

*momento dica de presente de aniversário. hshshshs*

Objectsexual (OS) é um equivalente de homosexual e heterosexual, mas com objetos inanimados. Mais que referência ao acto sexual, o termo fala de pessoas que desenvolvem afeto real, táctil, este que temos com outras pessoas, por objetos inanimados. Linko um texto sobre uma dona que casou com o muro de Berlin. Uma viuvinha muti louca.

Eu penso bastante neste conceito quando falo de livros (gostaria de ressaltar que não pratico sexo com livros). Não livros em geral, ainda que livros em geral tenham seu apelo, mas livros em especial. E especialmente livros em especial e USADOS. O que é um conceito bastante OS. Não somos atraídos por pessoas do gênero oposto ou do mesmo gênero EM GERAL, somos atraídos por pessoas que se encaixem nesta classificação e em outras tantas que temos. Homens, mulheres, sexys, inteligentes, com nariz específico, ombros específicos, uma roupinha maneira, enfim, cada qual com seu goishto.

Assim como pessoas, eu prefiro livros com história. Não estou falando da história de dentro do livro, o recheio, mas a história que fez o livro como objeto até chegar ali onde está, na minha mão, na minha frente. Não me importo tanto com pequenos sublinhados (excessivos e canetas marca-texto eu odeio, entretanto), que costumam deixar as pessoas malucas, pq eles trazem consigo pedacinhos da história do livro. Pequenos rasgos, páginas podres, odores, enfim. Como pessoas: nunca poderemos captar o passado real, podemos ouvir histórias, mas as marcas reais das histórias são bem mais interessantes e fazem as pessoas bem mais interessantes. Alguém pode falar horas sobre sua ex, mas quando comete um ato falho tu descobre bem mais que nos relatos racionais e polidos.

Quando eu era criança iniciei um costume que sinto cada vez mais falta no atarefado da vida: frequentar bibliotecas. Eu passava dias inteiros em bibliotecas pegando livros randômicos e tendo momentos OSes. Assim descobri Miller, Corso (e, por ele, os demais), Lemas, enfim, uma porrada de gente que é meu pahceria.

Ainda hoje eu tenho uma sensação de mágica quando entro numa biblioteca cheia de desconhecido. Bibliotecas de pessoas (vide post anterior) e públicas são, possivelmente, o único contato amistoso que eu faço com ácaros, germes e bactérias. Hshshshshs.

E isso é um momento solitário. Algumas vezes dividi isso com Cherry, mas só. É um momento bem difícil de dividir, requer tatuagem no pulso e confiança absoluta. E pode virar bem facilmente um inferno.

Minha biblioteca não me causa o mesmo fascínio, ainda que cause um fascínio bem grande. São sentimentos diferentes. Eu amo minha biblioteca, em especial os em especial, quase tanto quanto amo Colores&Filha deitadinhas (nu, heresia dizer isso, tadinhas). Eu conheço as posições dos autores, as divisões que fiz, a maior parte dos livros. Uma biblioteca alheia, entretanto, inexplorada, cheia de odores próprios, histórias que tu nunca vai saber e que vão te atormentar o coração de imaginar, nossa. Pago flexão por elas.

E quero lembrar que a sigla é OS, não OZ.

E quanto a vida sexual da viuvinha do Muro de Berlin, nem idéia, nem quero saber, GROTESCO. Mas imagino que os sentimentos sejam marromeno issae.

O ator

Posted in idéia não tem dono on 20 de outubro de 2008 by mari messias

Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças e alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo e comove-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores tem esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse dom. Por isso o artista de teatro é o ator.

O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria persondalidade em favor da personalidade de suas personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinadas variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. Eu amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o aotr que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos – é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e seu que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer de técnica mecânica.

MARCOS, Plínio

(meu pai e sua biblioteca mágica: ele me mostrou um livreto autografado, pequeno, fininho. textos e poemas. Chama Canções e Reflexões de um Palhaço. Como imagino que seja difícil de achar e como é total resiliência&sinceridade copiei na íntegra pros interessados no autor, em teatro, em dionisismo e demais fodidos)

A importância de ser Ernesto

Posted in quotes da rapeize on 17 de outubro de 2008 by mari messias

mari diz:
estou doente
Marcel AKA Ciscai diz:
que foi?
mari diz:
garganta e ouvidos
Marcel AKA Ciscai diz:
bah
Marcel AKA Ciscai diz:
evita bira e cigarro (ou seja, entra em coma e volta quando passar)

Cavalo de Fogo

Posted in quotes da rapeize on 15 de outubro de 2008 by mari messias

Marx: Aproveita que ta sonhando e pede um pônei

(a delicadez da alma humana)

Algumas máximas

Posted in maconha, o mundo (essa folia) on 14 de outubro de 2008 by mari messias

… sobre flerte, amogzinho e como perder babes.

(adoro como ela canta serelepe: I was your clown. sério, botão de risadas)

(Work in progress: nos últimos meses tenho me dedicado a fazer esta compilação da sabedoria universal do desamor. Se tiver dicas, chore nos comments)

1. Beba o suficiente para que um abraço afetuoso vire uma mão na bunda, mas não o bastante para que uma mão na bunda se transforme num tapa na cara.

2. Lesbianismo de apartamento, ajudando a afastar manés desde os anos 90.

3. Diálogo entre dois amigos:

A: Eu não pego ninguém pq eu jogo de centro avante, não no ataque.

B: Eu jogo na defesa.

A: Como assim, animal?

B: Se otário chega tocando e sendo gentil eu lanço logo um: qualé, mané, ta me tirando?

4. Nada como decidir explorar seu potencial LambdaLambdaLambda em um encontro e arrotar: Luke, I´m your father.

5. Nada como decidir explorar seu potencial LambdaLambdaLambda em um encontro e fazer citações e piadas cabeção que só tu entende.

6. Seja você mesmo.

7. Não saque nada da psiquê humana e ria quando devia fazer comentários profundos.

8. Exponha seu profundo conhecimento da psiquê humana quando o assunto é pornografia.

9. Seja sincero quando te fizerem perguntas retóricas, aquelas que já tem a resposta definida, saca? (Você gosta de mim? Na verdade só estou com muito tempo livre).

10. Deixe claro que tem bom caráter e coração puro. Essa aprendi no SVU, Stabler disse pra Olívia: Quer afastar a pessoa amada em 3 dias? Seja gentil e interessada (isso segue a lógica Groucho-Marxista de não aceitar pertencer a um clube que te aceita como sócio).

11. Seja um estereotipo de você mesmo e monologue (mulheres devem falar exageradamente sobre seus sentimentos quando alguém lhes disser bom dia, homens devem falar sinceramente sobre si mesmo quando alguém perguntar as horas, melancólicos devem filosofar sobre a maldade inerente quando alguém respirar).

12. Em homenagem ao Elton, não podia faltar, se apaixone por alguém que gosta das mesmas coisas que você. De todas as mesmas coisas, incluindo aquele barman/barwoman gatinho/a.

13. Ignore conceitos como intimidade, respeito, igualdade

(quando nada disso funciona, baby, você é o Austin Powers)

(agradecimentos de sempre: Marx, Paulo, Luana)

(esqueci dos desconhecidos, os mais crássicos)

Epílogo

Posted in deveras pessoais, idéia não tem dono, nadavê véiô on 13 de outubro de 2008 by mari messias

(reposto atendendo a pedidos, especialmente os meus. hshshshs. esqueci de agradecer pra feeder mais linda do país: Fabre, ailoviuforévis, mulata)

Eu não sou palhaça de transcrever esta coisa toda, na boa. É gigante. Mas eu e Luanita estavamos falando e eu disse pra ela que sempre que eu fico do outro lado do rio eu leio isso pra manter em mente coisas que prometi nunca mais tirar.

Como pessoas usam religião de um jeito escroto, como pouca gente repassa sentimentos bonitos e como as pessoas são incapazes de ver o outro. E quando veem, cagam pra isso. Sério, pode ser tudo muito cafona, muito blabla, mas doença é doença e vice-versa. Energia, carma, força de vontade de cu é rola.

Mas, de toda forma, aqui estamos todos reunidos e onde mais de um se reúne, sacumé, rola um pacto de não-suicídio. E eu sempre muito temerosa de falar disso já que nada pode ser mais íntimo e intimidade me da um medo tão grande. Um dos motivos, certamente, é que quando eu estive no pior dos piores momentos eu vi como as pessoas são escrotas sem precisar tentar. Então resolvi me poupar.

Mas, issae, roubei de alguém que roubou da médica maluca poética de elite. Eis o que eu leio toda noite antes de dormir quando estou do outro lado do rio (não que esteja agora, mas se você estiver, EU ME IMPORTO, OK? DE VERDADE. E NÃO SOU A ÚNICA. BEEEEIJO):

Muitas vezes me perguntei se optaria por ter a doença maníaco-depressiva, caso pudesse escolher. Se eu não dispusesse de lítio, ou se ele não funcionasse no meu caso, a resposta seria um simples “não” – e seria uma resposta impregnada de horror. No entanto, o lítio funciona no meu caso; e, por isso, suponho que possa me permitir essa pergunta. Por estranho que pareça, creio que optaria por ter a doença. É complicado. A depressão é apavorante demais e não cabe em palavras, sons ou imagens. Eu não gostaria de voltar a passar por uma depressão prolongada. Ela exaure os relacionamentos através da suspeita, da falta de confiança e do amor-próprio, da incapacidade de aproveitar a vida, de caminhar, conversar ou raciocinar normalmente, da exaustão, dos terrores noturnos, dos terrores diurnos. Não há nada de bom que se possa dizer da depressão, a não ser que ela nos dá a experiência de como deve ser a velhice, ser velho e doente, estar à morte; ter a mente lerda; não ter elegância, educação ou coordenação; ser feio; não acreditar nas possibilidades da vida, nos prazeres do sexo, na perfeição da música ou na capacidade de provocar o riso em nós mesmos e nos outros.

As outras pessoas insinuam que sabem como é estar deprimido porque passaram por um divórcio, perderam um emprego ou romperam relações com alguém. A verdade é que essas experiências trazem consigo sentimentos. Já a depressão é neutra, oca e insuportável. Ela é também cansativa. Ninguém aguenta ficar ao lado de quem está deprimido. As pessoas podem até achar que devem ficar, e podem até tentar, mas você sabe e elas sabem que você está incrivelmente chato: irritável, paranóico, sem senso de humor, sem energia, cheio de críticas e exigências, e nenhum tipo de esforço para reanimá-lo jamais é suficiente. Você está assustado e está assustador. Você “não está nem um pouco parecido consigo mesmo, mas logo vai estar”, só que você sabe que não vai.

E então por que eu iria querer ter alguma coisa a ver com essa doença? Porque acredito sinceramente que, em conseqüência dela, senti mais coisas e com maior profundidade; tive mais experiências, mais intensas; amei mais e fui mais amada; ri mais vezes por ter chorado mais vezes; apreciei mais as primaveras apesar de todos os invernos; vesti a morte “bem junto ao corpo como calças jeans”, aprendi a apreciá-la, e à vida, mais; vi o que há de melhor e mais terrível nas pessoas e aos poucos aprendi os valores do afeto, da lealdade e de ir até o fim. Conheci os limites da minha mente e do meu coração, e percebi como os dois são frágeis e como, em última análise, são incognoscíveis. Em depressão, engatinhei para poder atravessar um quarto e fiz isso meses a fio. No entanto, normal ou maníaca, corri mais, pensei mais rápido e amei mais do que a maioria das pessoas que conheço. E creio que boa parte disso está relacionada à minha doença – à intensidade que ela confere às coisas e à perspectiva que ela me impõe. Creio que ele me faz testar os limites da minha mente (que, embora deficiente, está firme) bem como os limites da minha criação, família, formação e dos meus amigos.

As incontáveis hipomanias, e própria mania, todas trouxeram para minha vida um nível diferente de sensação, sentimentos e pensamentos. Mesmo quando mais psicótica – delirante, alucinada, frenética – estive consciente da descoberta de novos recantos na minha mente e no meu coração. Alguns desses recantos eram incríveis, lindos; tiravam meu fôlego e fizeram com que eu sentisse que poderia morrer ali mesmo que as imagens me sustentariam. Alguns deles eram feios, grotescos. Não quis nunca saber que eles existiam, nem vê-los de novo. Sempre, porém, havia aqueles novos recantos; e – quando me sinto normal, devendo essa minha identidade à medicina e ao amor – não posso imaginar que me torne indiferente à vida, porque sei desses recantos sem limites, com seus panoramas sem limites”.

P.s: Em tempo, eu não acredito nesta palhaçada de ser especial pelo horror. Somos especiais, como todos os seres, mas esse nem é um motivo válido para argumentação. Eu acredito no que minha ermãzinha escreveu:

Meu bem, não é cool ser bipolar. Não é nada cool. Vamos acabar com  esse hype sem sentido de querer ficar sendo bipolar pela estrada afora. Ser doente não é cool. Sem essa de todo mundo é um pouco bipolar. Bipolar é bipolar e é doente e quem é bipolar troca o hype por um não-transtorno e dez real. Chega. Obrigada.

DÉRREAU.