Arquivo para maio, 2010

A vida da gente faz sete voltas – se diz. A vida nem é da gente

Posted in idéia não tem dono on 30 de maio de 2010 by mari messias

Umas definições, talvez, já que todos andam confusos:

Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquêle encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio coração é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. – “Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos” – me explicou o compadre meu Quelemém. Que fôsse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surprêsas. Amor dêsse, cresce primeiro; brota é depois. Muito falo, sei, caceteio. Mas porém é preciso. Pois então. Então, o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, senão, minha confusão aumenta. Sabe, uma vez: no Tamanduá-tão, no barulho da guera, eu vencendo, aí estremeci num relance claro de medo – mêdo só de mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que eu mesmo; e, de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. Que eu de repende me perguntei, para não me responder: – “Você é o rei-dos-homens?…” Falei e ri. Rinchei, feito um cavalão bravo. Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam só o alto tremer da poeira. E mais não digo; chus! Nem o senhor, nem eu, ninguém sabe.

(…)

Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.

Guimarães Rosa

Férias

Posted in deveras pessoais on 28 de maio de 2010 by mari messias

S.f.pl: Certo número de dias consecutivos destinados ao descanso de funcionários, empregados, estudantes, etc., após um período anual ou semestral de trabalho ou atividades.
IE

[após um litro de vinho]

mari: to bêbada. chorei por mario de sa sendo maltratado por pessoa.
marx: HAHAHAHAHAHAHAHAHA
mari: literalmente ;/

Wonder Yeats

Posted in idéia não tem dono, quer que desenhe?, quotes da rapeize on 26 de maio de 2010 by mari messias

Mari: Ai, será que TABU é todo sobre pessoas que não se adequam de diversas maneiras? Se sim, é possivelmente meu programa favorito ever.

Marx: Nah, o próximo é sobre trabalho.

Mari: Sim, e todo mundo é suuuuuper integrado no trabalho o tempo todo, né? Pensa nisso a próxima vez que tu tiver dando aula de poesia pra alunos semi-lesados. Bjs.

Marx: Ai, amanhã? Aliás, amanhã tem YEATS. Vou levar a HQ aquela [ver ao final do post].

Mari: Ai, siiim, precisa levar. Mas não ridiculariza o coitado do Yeats. Depois de mostrar pelo menos cita o poeta estadunidense contemporâneo Snoop Dogg: “Silly of me to fall in love with a bitch”.

Marx: GÊNIO.

Mari: Viu, só ajudo a elevar teu nível acadêmico.

Comics da Kate B.

Blackbird

Posted in deveras pessoais, ieieie with tags on 26 de maio de 2010 by mari messias

Hoje, aniversário da Clara e do Miles.

And, the biggest sonzera ever

Yo, Friki

Posted in deveras pessoais, o mundo (essa folia) on 23 de maio de 2010 by mari messias

Dia 25, terça agora, comemoramos o Dia Internacional do Orgulho Nerd. E é sobre isso que vamos discorrer.

ALERTA! EIS UM POST CHEIO DE REFERÊNCIAS E CITAÇÕES!

Ano passado escrevi um post super OUIÉ sobre o Dia do Orgulho Nerd, um evento criado na Espanha em 2006 como referência a premiere do Star Wars (em 1977), pra nos lembrar que quem tem orgulho não sintegra.

Mas foi, de certa forma, mais frugal. Esse ano as coisas serão um pouco mais sombrias e proustianas por aqui. No sentido de traçar brevemente minha própria Epistemologia do Armário e de lembrar a importância de recuperar os elos afetivos essenciais, coisa que eu fiz de uma maneira quase sensorial.

Muitos muitos muitos posts atrás eu falei sobre como sempre podemos, se quisermos, levar uma vida sem essas coisas que são nossos afetinhos mais sinceros. Isso, claro, se não nos importarmos em levar uma vida marromeno. É como diz no Apocalipse:

Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.

Acorre que, como já disse Frost, pegar estrada de chão batido faz toda a diferença. Mas isso nem sempre é simples e as vezes cansa. Então, nos últimos tempos me desviei um pouco da minha nerdice. Mas ficou esse vaziozinho. Como ficam outros buracos, quando vou esquecendo das coisas pelo caminho. Acho complicado lidar com minha multiplicidade. Feito falou nosso truta Leminski:a vida é curta demais pra mais de uma idéia.

Acho que é normal ao homem humano hesitar diante de si. É o velho debate/dilema sobre conceitos de self, que foi belamente ilustrado no episódio do Ren & Stimpy que eles entram no próprio umbigo, saca? Mas, enfim, não importa em qual conceito de self tu acredita e/ou acha que ta vivendo, socialmente isso é sempre reduzido a alguma coisa que é bem menos que 1/12 (adoro um doze avos) do que tu é (a cada segundo). Todo mundo é infinito e não suportaríamos lidar com isso, então nomeamos as pessoas de algo bem imbecil que não chega nem perto de quem elas são, de fato.

Já diria Whitman:

Eu me contradigo ? Pois muito bem, eu me contradigo, Sou amplo, contenho multidões

Ou Derek Walcott:

Either I’m Nobody or I’m a Nation

Ou Whitman, de novo:

But they are not the Me myself.

E, desde a tenra juventude, uma das minhas birras com chamar pessoas de nerd é que isso foi apropriado por rapeize que acredita que ficção é sinônimo de ficção científica e que ser nerd é a totalidade de uma alma.

Além disso, também me cansa gente que acredita que alguém é nerd por falta de opção. Como se alguma escolha fosse feita por falta de opção. Sempre que optamos por algo, temos um universo que é preterido em nome disso disso e daquilo (que escolhemos para nos constituir). Mesmo quando a escolha é só uma confirmação do que nos faz mais felizes, é uma escolha. Quanta gente anda por aí só na sobrevivência, bro.

Eu, como nerd e mais 834793427234 coisas, nunca gostei de ficção científica, nunca fui a melhor aluna, sou de família arté, aprendi a prezar muito meu caos, sempre fui inadequada, sempre senti afeto por poesia e prazer sincero por aprender. E QUASE sempre tive coragem pra viver na minha nação.

Já que um nerd, como eu vejo, é uma pessoa que sente esse prazer genuíno por se aprofundar nos seus interesses, mesmo que eles não interessem mais ninguém. Mas além disso, ele tem coragem de assumir, pra si, pros outros, pra quem quiser.

Então pegue seu biscoitinho proustiano, redescubra o que você ama sinceramente, saia do armário e bora comemorar o orgulho dos nerds, esses aguerridos, nós. Que temos como compromisso NO MÍNIMO ajudar a salvar o mundo das hordas de semgracismo infernal.

Mas bora antes que seja tardimais (pra gente, ou role um burn, baby, burn, sei lá).

(leia aqui)

Passar bem.

Desobediência Civil Capitalista

Posted in nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 4 de maio de 2010 by mari messias

Uns posts/anos atrás eu citei, por cima, o Albert Spaggiari. Mais como piada de mim para mim que como referência real. Então hoje, lendo sobre o Enric Duran, resolvi oferecer um puxadinho na bloga para tão nobres figuras.

O que eles tem em comum? Ficaram conhecidos por crimes não violentos contra instituições financeiras, ie, bancos. O que, bem ou mal, nos bota pensativos bagarai. Em ambos os casos foi intencional nos colocar pensativos, respeitando os limites de seus tempos e autores.

Spaggiari foi o criador do motto clássico: Sans armes, ni haine, ni violence (sem armas, nem ódio, nem violência) e Enric Duran é conhecido como Robin Bancs, Robin Hood moderno, Robin Banks, Robin Hood dos Bancos, por aí vai.

Spaggiari foi um french maroto que, em 1976, fez aquele que ficou conhecido como o maior roubo do século (passado). Mas ele tinha uma alma de poeta, saca. Rezalenda que o primeiro roubo dele, na tenra juventude, rolou pra dar uma jóia pro seu, então broto. Aliás, os brotos foram um problema na vida do cara, acompanhe. Depois disso ele foi ser paraquedista sei lá onde pra não ter que ir preso. Na volta pra França não abandonou a revolução armada, e foi logo escolhendo a revolução mais escrota: pra fazer a Argélia permanecer francesa. E por isso ele foi preso. Pra aprender a deixar de ser babaca. Ou quase.

Então, provando que a alma de poeta continuava ali, ele abriu um studio de fotografias. Os jovens (salvo pelos arté) não devem saber, mas naquela época as fotos tinham uma tecnologia que envolvia FILMES e  REVELAÇÃO (não divina, enfim, SE INFORME). Mas tem gente que diz que era só fachada. De toda forma, que fachadinha, né manô: vou simular que não sou criminoso fazendo POESIA. AVÁ.

Daí, do seu cantinho de artista, todo bolorento e muquifento, ele bolou um negócio genial. Sério. Genial mesmo. Não tou exagerando, JUROR. De chorar pedrinha no canto. De escrever poesia sobre. De transformar em origami e abraço apertado. Ele descobriu que os esgotos levavam lá pro banco Société Générale e começou a cavar um túnel logo embaixo do cofre do dito. Reza a lenda que logo antes disso ele tentou apoio da máfia local e nem rolou, daí ele construiu sua própria máfia cheia de especialistas em vááárias coisas: pedras preciosas, bombas, cofres, enfim, tudo que rapeize precisa.

No dia das comemorações da Bastilha que é tipo O VINTÊ do mundo quase real, eles entraram no cofre na maciota, armaram um piquenique com vinho e patês, abriram os cofres, analisaram os contiudos, pegaram o que queriam, ficaram transportando, de sobra colocaram fotos comprometedoras de políticos e/ou Tio Patinhas pelas paredes, escreveram o motto aquele do lado (sans armes, ni haine, ni violence),  deixaram o resto do piquenique SÓ DE DESAFORO e deram o vazare.

Genial, né?

Pobrema foi que Spaggiari, como todo cara massa, curtia mina-loca. Então ele demorou meses cavando esse túnel e a ML achou que ele tava, ÓBVIO, com outra ML. Que é SÓ o que mina-loca pensa, nós dois sabemos disso. E, tipo, passar madrugada de feriado fora de casa FOI A GOTA DAGUA e a mina-loca dele ligou pra PULIÇA no dia que ele invadiu o cofre dizendo que ele tinha sumido. E no dia seguinte, procurando pistas no estilo STABLER CONTRA O CRIME eles uniram os pontos e PAFE.

Lá foi nosso herói preso.

Mas aí no dia do julgamento, manô, sujeito começa a dar um discurso sem lógica na frente da juíza. Levanta, fala nada com nada, faz longas pausas, muita linguagem corporal (licença, tou visualizando aqui), se apóia na janela para chorar, volta, corre em direção a janela e pula. Todos acham que ele tentou se matar. Mas ele caiu em um carro, subiu numa moto e fugiu.

Teve prisão perpétua decretada, mas diz o cara que escreveu o livro sobre ele e que, reza a lenda, o entrevistou em Paris, que foi parado por um puliça no dia que todo o país sabia que ele estava indo se encontrar com o Albertão e o poliça sorriu e desejou sorte. Saca.

Hoes recognize, niggaz do too.

Quer mais? Outra célebre frase do Spaggi era “Tout me fait rire”. Descobriu o segredo da vida, saca? Sujeito morreu na Itália, aos 56 anos, fugiu da frança do lado da mina-loca que denunciou ele, cheio da grana, fez umas plásticas, enfim, la vie, esta folie.

Bom, saiu filme. Tava passando um dia 4 da manhã no TC Cult, dormi, obvio. Recomendo. Mesmo que seja uma merda.

Bow down to the King of kings.

Então chegamos, finalmente, no Enric Duran. O cara é catalão. Galerinha da Catalunha é pobrema, todo mundo sabe.

Começa com o papo de eles lutarem com machete na mãozinha bonitinha deles por um idioma. Porra, me larga, eu vejo assim.

Mas aí esse cara é de uma cidade perto de Barcelona (chama Vilanova i la Geltrú) e, rezalenda, que ficou estudando anos maneiras de fazer o que fez, feito o Spaggiari. Então, de 2006 até 2008, ele pegou 68 empréstimos pessoais em bancos, totalizando 492,000 euros. Em 2008 ele saiu do armário como um ativista anti-capitalista e disse: Oh, rapeiz, peguei na maldade e nem vou pagare. Pra vocês aprendere.

Na real foi mais massa, ele escreveu um artigo chamado, marromeno: “Eu roubei 492,000 euros de quem mais nos rouba para denunciar essa galerinha e construir algumas alternativas viáveis pra sociedades” e tu pode ler aqui em inglês. No negócio ele explica que queria, com isso, chamar a atenção pro sistema financeiro bizarro que vivemos, onde é impossível normalmente pra qualquer pessoa conseguir essa soma de dinheiro e, mesmo assim, os empréstimos estão aí, super facilitados e tributados. Ele oferece um monte de possibilidades de take action, pra quem quer se engajar e viabilizar uma construção alternativa ao modus operandi financeiro atual. Mas ele diz que, se tu não quer fazer isso, faça ao menos o seguinte:

– não pegue nenhum empréstimo e tire todo o dinheiro de bancos.

E ele distribuiu isso em uma espécie de jornalzinho ou revista, pelo que li, que chamava Crisi. Enfim, na publicação ele também explica como gastou o dinheiro que afanou sistematicamente. Diferente do Spaggiari (outros tempos, outras metas, outros heróis), o Duran não tomou tudo pra si. Ele usou uma parte pra imprimir a Crisi, que é uma espécie de manifesto da causa com o dinheiro do inimigo. E, saca só, eu fiquei sabendo que esse cara existia num blog de um brasileiro que pegou o jornalzinho de um amigo não-sei-que que ele encontrou em Portugal. Emocionante, né?

Além do jornal, o Duran também doou uma grana prumas instituições que buscavam alternativas ao sistema capitalista e que ele curtia (são várias, SE INFORME), mas nem disse quais pra evitar problemas e devoluções forçadas.

O Duran foi preso, mas pelo que entendi foi por ter usado documentação falsa em alguns dos empréstimos. Vocês podem ler mais online em vááários lugares, inclusive em português (google it, bitch). Mas oficial tem a revista PODEM pra ler online em várias línguas, aqui link em inglês. Também tem o  blog dele.

Ah, o título do post é uma expressão que ele usou lá no manifesto original. E E E E E sabe quem ele me lembra  (e que gosto tanto)?

Como diria POUND:

ATENTE para o som que isso faz.