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Jogo da vida

Posted in idéia não tem dono, maconha, nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 16 de maio de 2011 by mari messias

Esses dias li, no Gamasutra, um texto do Ian Bogost falando contra a idéia de gamification. E não seria capaz de tirar toda a razão do cara quando ele argumenta que existe muito de pejorativo e de posicionamento retórico nas acepções dessa expressão.

Quando, por exemplo, alguém pensa nesse tipo de idéia como “finalmente um uso (prático)” para os games eu sempre penso em poesia, que é outro lance que eu gosto muito e que atingiu alguns de seus patamares mais lamentáveis buscando uma “utilidade”, algum papel social. Ignorando que isso é intrínseco a qualquer coisa, no final.

Como diria o Leminski, poesia é uma inutilidade cotidiana, no sentido de que precisamos de coisas que não encaixamos no fluxo objetivacional: trabalho-dinheiro-persona-sei lámaisoque. No sentido de que muitas das melhores coisas da vida, feito amor e gatos, são parte do que tem de belo, não do que tem de útil, na existência. No sentido de que uma coisa/alguém pode simplesmente existir na nossa vida porque sim. Saca?

Além disso, o Ian fala lá da ideologia por trás das palavras. Como expressões feito “jogo sério” e “guerra ao terror” foram difundidas no uso cotidiano sem, quase nunca, levar em conta a postura diante de mundo que vinha embutida nelas. Muitas vezes não notamos, mas todas as maneiras de expressão de existência são um statement. Se eu uso preto, se eu vou ao cinema 3D, se eu falo “todos chora”, tudo isso é uma manifestação da crença que temos nas coisas do mundo.

As Luntz puts it, what matters is not what you say, but what people hear. And when we’re talking about games, people often hear nothing good. Making games seem appealing outside the entertainment industry is a daunting task, and a large part of the challenge involves deploying the right rhetoric to advance the concept in the first place.

Claro, nem todo mundo é assim. E nisso acho que a abordagem do Bogost é tão tosca quanto a dos social game haters. Ver de fora, algo que não te interessa, ou tu acha que não te interessaria, é coisa de quem JÁ SABE TUDO e, como tal, pode morrer e virar diamante.

Em alguns casos, sim, as propostas são de estripar o próprio conceito de jogo e deixar só uma estrutura utilitária descolíssima. Mas, como ocorre com edugames e afins, não acho que isso vá dar muito mais certo do que qualquer outra abordagem, tipo, poesification, daria.

Mas, em outro sentido, a idéia de aprender com o que os jogos e nossa loucura por eles pode nos ensinar me parece tão boa e quanto qualquer outra.

Especialmente se notamos a estrutura de ambos como algo similar, tipo, a vida é um game não muito aberto.

Além disso, vários especialistas, de diversas áreas, como educação e psicologia tem pesquisado e buscado compreender os motivos que nos levam a jogar. E isso pode nos levar muito adiante, adaptando o mundo cotidiano a quem somos e não vice-versa, que é como me parece que ocorre DESDE SEMPRE. No Guardian tem um texto sobre algumas dessas pesquisas:

An effective learning environment, and for that matter an effective creative environment, is one in which failure is OK – it’s even welcomed. In game theory, this is often spoken of as the ‘magic circle’: you enter into a realm where the rules of the real world don’t apply – and typically being judged on success and failure is part of the real world. People need to feel free to try things and to learn without being judged or penalised.

Alguns dos grandes aprendizados que os games tem nos trazido são o exato oposto do que o “mundo real” sempre nos deu e ensinou a dar. Por exemplo: o valor de falhar, de reconhecer mérito, de notar cada indivíduo como insubstituível e único, de aprender com os outros, etc etc etc.

Enfim, tem mais de 12 mil coisas positivas e negativas que essa nova postura com relação aos games pode trazer pra nossa vida out game.

Mas daí eu penso na resposta do Zizek, de que não existe real sem virtual, o virtual do vazio fantasmático. Mais ainda, de que algumas vivências extra-reais são mais reais que a própria realidade.

Nesse caso, o papel que enceno em meus sonhos acordados do ciberespaço não é de certa forma “mais real do que a realidade”, mais próximo do verdadeiro núcleo da minha personalidade do que o papel que desempenho em minhas trocas com meus parceiros na vida real? É exatamente porque estou consciente de que o ciberespaço é “apenas um jogo” que posso viver nele aquilo que eu nunca poderia admitir em minhas trocas intersubjetivas “reais”. Nesse sentido, como diz Jacques Lacan, a Verdade tem a estrutura de uma ficção: o que aparece como sonho ou mesmo como sonho acordado é às vezes uma verdade escondida cuja repressão estrutura a própria realidade social. É aí mesmo que reside a última lição de A interpretação dos sonhos, de Freud: a realidade destina-se àqueles que não podem suportar o sonho.

Ou ainda:

Our fundamental delusion today is not to believe in what is only a fiction, to take fictions too seriously. It’s, on the contrary, not to take fictions seriously enough. You think it’s just a game? It’s reality. It’s more real than it appears to you. For example, people who play video games, they adopt a screen persona of a sadist, rapist, whatever. The idea is, in reality I’m a weak person, so in order to supplement my real life weakness, I adopt the false image of a strong, sexually promiscuous person, and so on and so on. So this would be the naïve reading… But what if we read it in the opposite way? That this strong, brutal rapist, whatever, identity is my true self. In the sense that this is the psychic truth of myself and that in real life, because of social constraints and so on, I’m not able to enact it. So that, precisely because I think it’s only a game, it’s only a persona, a self-image I adopt in virtual space, I can be there much more truthful. I can enact there an identity which is much closer to my true self.

Nesse sentido, buscar compreender os apelos da ficção não deixa de ser tentar entender quem somos. Ou, como diria o Vonnegut:

We are what we pretend to be, so we must be careful about what we pretend to be

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Então é Verão, e o que você fez?

Posted in degredo no olimpo, idéia não tem dono, ieieie, maconha, nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 21 de dezembro de 2010 by mari messias

Sim, continuarei comemorando estações. No meio do ano conheci Bonito, fugindo da idade glacial que estava em PoA. Então um dia, voltando dum mergulho massa, toda molhada, solzinho delícia e a brisa, eu pensei que nunca mais problematizaria a vida ou leria mais nada se pudesse só ficar sentindo aquele brisa delícia.

Tipo Issa:

pobre sim pobre pobre pobre
a mais pobre das províncias
mas sinta esta brisa

E tem também: Na real, verão pra mim sempre é Canto de Ossanha. Poseidon chega lavando a costa e dando as real.

O homem que diz dou não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz vou não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz sou não é
Porque quem é mesmo é não sou

Aqui tem o Contagem Regressiva, uma homenagem ao Verão, cheio de sonzera.

E aqui tem nossa deliciosa trilha de verão, versão nacional; Summer is Magic, mórenas.

Beijsbeijs.

Excesso de opinião

Posted in deveras pessoais, maconha, o mundo (essa folia) on 28 de novembro de 2010 by mari messias

Absolute truth is a very rare and dangerous commodity in the context of professional journalism. – Hunter S. Thompson

Ontem o Milton chegou aqui em casa eufórico, dizendo que tudo ia mudar graças a uma bomba dos Wikileaks. Eu não botei muita fé, já que a (troco de gênero quanto quiser, me larga) Wikileaks tem mostrado uma infindade de podreiras do mundo, mas nunca recebeu atenção de massa, aquela que MUDA TUDO, e que eles mereciam. Talvez o nome, como MARCA revolucionária (tipo Che), mas as informações nunca vi serem debatidas em mesa de bar por um bando de gente emocionada.

A importância desse medidor da mesa de bar é a seguinte: hoje tu senta em qualquer pé-sujo da Cidade Baixa-Centro e rapaziada sabe tudo sobre Complexo do Alemão e os grandes cabeças criminosas PORQUINHO, MOLEQUE E POLEGAR. E isso é uma rebatida bem triste ao meu eterno nhenhenhe de que não existe uma grande mídia. Claro, cada vez fica mais forte meu péssimo costume de medir pela exceção e a grande maioria das pessoas ainda se alimenta de TV e ZH.

Então, possivelmente os dados da Wikileaks venham a sair na GloboNews, no JN, mas eles vão chegar lá não como dados, essa é a minha angústia, mas como uma opinião. Opinião todo mundo deveria ter. E criar um blog, twitter, whatever, pra debater com os amigos. Claro, também, que tudo passa por um filtro de opinião, mas até que ponto esse filtro, corporativo, não jornalistico, não é uma espécie de profissão de fé? Tipo assim:

O Morro do Alemão já está tomado pela lei (GloboNews)

Isso não é um dado, isso é uma crônica.

E me angustia nessa cobertura que não existe nenhum tipo de distanciamento que me forneça dados para que eu possa formar uma opinião embasada na atual situação. E isso é o que o Wikileaks faz. E fez como o demo agora.

É triste falarmos em overdoses de informação quando nem sempre podemos encontrar informação, soterrada em tanta opinião. E não é por menos que Wikileaks é o dimonho do mundo moderno e os PirateBay (vendidos ou não, um ícone do fluxo livre de dados) tenham sido sentenciados a prisão.

Mais que saber o óbvio, tipo, US tem espiões na ONU, Wikileaks nos pega pelos dados: podemos pensar, temos informação pra raciocinar sozinhos.

Como eu vejo, duas das mais fundamentais funções da internet são libertar a informação e a opinião. Mas a segunda sem a primeira é pros religiosos, rezando pelo RJ, pedindo paz no Oriente Médio. Nós precisamos ter honra. Pelo menos nós que vivemos na beirada, que somos um desvio, que não conseguimos ver opinião como sinônimo de dado. Nossa função humana mínima é sentir essa brisa inadjetivável, sem ignorar os links que estão aí pra quem quiser ler. E opinar.

Leia mais no Guardian

Leia mais no ElPais

Twitter Wikileaks

Texto massa do ElPais sobre a importância Wikileaks pro jornalismo

Aí o vídeo que ta circulando do morador da Vila Cruzeiro acusa polícia de roubar R$ 31 mil:

You Can Never Hold Back Spring

Posted in idéia não tem dono, ieieie, maconha on 23 de setembro de 2010 by mari messias

A little Madness in the Spring
Is wholesome even for the King,
But God be with the Clown –
Who ponders this tremendous scene –
This whole Experiment of Green –
As if it were his own!

Emily Dickinson

[e chegou a primavera, numa vibe de inverno ainda, mas já primavera. e isso, MUDA TUDO. JURO.]

Asbestos Gelos

Posted in maconha, nadavê véiô, o mundo (essa folia) with tags on 29 de agosto de 2010 by mari messias

Asbestos gelos é uma expressão homérica (usada pelo Homero, não o professor, mas também grande sujeito) que quer dizer risada inextinguível. Dizem os conhecedores da língua hellenica que a raíz do negócio é relacionado com fogo, inextínguivel como o fogo. É uma risada que só os Deuses podem dar. Como os relatos dessa risada que eu li tem relação com o  Hefestão, outro grande sujeito, que trabalhava com forja de metal, pode fazer todo sentido pensar que estejamos fazendo esta relação: fogo, Hefesto. Mas aí, as únicas criaturas que podem dar uma risada inextinguível e continuar a fazer outras coisas, viver sua vida sérios enquanto lá, em outra situação, seguem dando aquela risada, são os deuses, compreende? É assim que eu vejo, e acho bonito pacas.

E se pensarmos que o Arista, outro queridão, falou uma coisa que levamos a ponta de faca até hoje, que só rimos de homens que consideramos inferiores, com defeitos, não os heróis trágicos ou épicos, é massa pensar que Hefesto era um deus coxo que fazia rir. E deve ser por isso que ele casou com a mais gata das gatas, Afrodite, a deusa amante das risadas.

Pra falar a verdade, não sei como as coisas começam. E sendo sincera mesmo, esse negócio muito impreciso e não me causa nenhum furor. Mas eu sei que em todos os momentos que consigo lembrar (pq li sobre, já que não tenho Delorean) o homem esteve atado ao senso de humor. Professor Propp mesmo disse que a “comicidade costuma estar associada ao desnudamento de defeitos, manifestos ou secretos” e o Doutor Verena disse que rir é “uma forma específica de conhecimento do social e de leitura da opressão” ou ainda de “de relaxar ante as restrições da vida cotidiana”.

Então quando pensamos nesse mundo que vivemos agora, onde adoramos nos gabar do incrível acesso a informação que temos, aprovar essa mini reforma que proíbe o senso de humor político é ir contra Afrodite. E isso eu não posso suportar.

Quando twittei que Manuela D´avila foi responsável por uma parte dessa reforma, o twitter oficial da candidata me enviou o link da resposta da mesma, onde ela dizia que, entre outras:

SOU CONTRA QUALQUER TIPO DE CENSURA, INCLUSIVE A CENSURA DO HUMOR NA TV, e minha emenda garante a liberdade dos internautas.

ASSIM, em caps. Mas aí, ali no link dela nem tinha o texto da emenda, pelo UOL achei, onde tu pode ler que “é vedada utilização e veiculação de trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação.”, mas nos sites de candidatos e partidos. O que inviabilizaria o motto eleitoral da mesma, que era “E aí, beleza?”, mas massa. Ela também propõe proibição de qualquer propaganda online paga.

Então o grande horror surge com o Flávio Dino do PC do B do Maranhão (claro), que ampliou essa coisa aí de cima “é vedada utilização e veiculação de trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação.” Pra qualquer situação, incluindo televisão, programas humorísticos, auto-tune, sua mãe, o Damião, enfim.

Daí tem uma dona lá que argumenta sobre o lance de evitar favorecimento pela opinião pública. Ok, do básico.

Mas, né, todo mundo pode falar o que quiser, contanto que seja o que eu quiser. Por isso é importante manter o bom senso, o de humor. Já que ele só ocorre quando existe uma platéia. Esqueci quem, mas tem um teórico que diz isso. Enfim, é como quando eu conto uma piada e tu não ri, não quer dizer que ela não tenha graça. Se eu falei é pq achei engraçada, quer dizer que ela não tem graça pra ti, pq não te toca, e isso é a moral do humor. A troca desses dois níveis. Neste sentido, não existe vitimizar um público, lobotomizar o povo pelo senso de humor, a menos que ele seja tocado pelos problemas relatados pelo humorista, ele não vai rir.

Enfim, é como diria o velho misógino Schopenhauer, nossa vida, de longe, tem cara de comédia. E políticos escolhem ser vistos de longe por muita gente, aquelas pessoas que pagam o salário deles. Então, atura o parabéns, bro.

[provando total desrespeito com a mini reforma do Dinão, eis um apanhado do horário político]

Minha vida é uma mentira

Posted in deveras pessoais, idéia não tem dono, maconha, rubens ewald tchora on 28 de julho de 2010 by mari messias

Possivelmente, se pararmos pra pensar, o grande ensinamento por trás de quase tudo na vida é a importância de mentir/simular. Star Wars, no fundo, fala sobre aquelas pessoas que conseguem aprender a mentir e aquelas que não conseguem. O ditado que diz que um casamento vale mais que mil mosteiros, em suma, fala sobre o bom senso de duas pessoas que sabem como pode ser gratificante simular com um sorriso no rosto.

Tento aprender (a duras penas) sobre isso desde que, certa feita, o Padawan Juliano começou a insistir na tecla “fake it” pra mim, que defendia a suprema verdade absoluta e contínua como o sublime cotidiano. Enquanto ele dizia isso eu deixava de levar em consideração o dito, falando que ele tava sendo só um gangstamodafoca. Claro, o nível mais sútil raramente é apreendido e se perde na insolência cotidiana. Então, tempos depois, o Last Psychiatrist colocou o tema de maneira mais For Dummies e eu consegui captar:

“Help me, please, I think I’m a narcissist.  What do I do?”

There are a hundred correct answers, yet all of them useless, all of them will fail precisely because you want to hear them.

There’s only one that’s universally effective, I’ve said it before and no one liked it. This is step 1: fake it.

You’ll say: but this isn’t a treatment, this doesn’t make a real change in me, this isn’t going to make me less of a narcissist if I’m faking!

All of those answers are the narcissism talking.  All of those answers miss the point: your treatment isn’t for you, it’s for everyone else.

If you do not understand this, repeat step 1.

Mentir, simular, é a essência de ver e se importar com o outro. E só se importa com o outro quem não é patologicamente imbecil, claro. Por isso, acredito eu, socialmente só existimos por termos essa capacidade incrível de criar ficção que diminui a danação.

E se agora tu te sentou aí no teu cantinho e pensou: HA, eu nem sou um narcisista, beleza, seguirei levando a verdade acima de tudo. Bom, certamente tu é um porco egoísta.

Por outro lado, tu também pode pensar que não precisa mentir, já que quando tu te importa com alguém a verdade é a sempre doce e suave. Além de ser uma mentira imbecil, nós raramente começamos nos importando com os outros logo de cara e o meu ideal é que isso seja universal, saca? O processo que nos leva a criar vínculos é uma longa teia de mentirinhas carinhosas que visam aproximação. De que outra forma tu conseguiria conhecer dobrinhas da alma de alguém, se não por ter passado longos períodos falando frugalidades, imbecilidades e invencionismos com essa pessoa? O romance, a amizade, o carinho, o amor familiar, tudo tem suas bases em pequenas ficções. E a ficção é linda.

Imagina acordar e toda a ficção do mundo ter sumido. How sad. Como delimitar o que é real, pra começar? De toda form, a vida seria bem vazia, eu acho. É como disse Leminski:

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

Mas, enfim, acredito que gradações e intenções moldam tudo, incluindo os meandros ficcionais. Então, talvez o melhor jeito de exemplificar o que eu tou falando blablabla é sugerindo que tu veja The Invention of Lying, num mundo sem mentira, todo mundo é amargo, niilista, direto, sem amor e sem afeto. E sem livros. Nem filmes. Nem jogos de palavras. Um mundo asperger.

For Corso

Posted in degredo no olimpo, deveras pessoais, idéia não tem dono, maconha with tags on 8 de julho de 2010 by mari messias

Como a maioria de vocês, entre infância e adolescência inúmeras vezes acompanhei minha mãe ao seu trabalho e, seguindo eterno costume fetichista e alergênico, ficava me enfiando pelos corredores de uma biblioteca que tinha lá perto. Até pouco tempo atrás ainda mantinha a carteirinha de lá, com a foto ridícula da minha infância e a lista infinita e disléxica de coisas que descobri lá e quase me mataram de alegria.

Um dia, já na adolescência (ainda que não muito), peguei um livro seguindo o princípio do randomismo mágico. Era Corsinho, AKA, Gregory Corso.

Ginsberg, Corso, Rosset

Explodi a cabeça com ele e isso também e me levou pelas ruelas de todos os seus amigs. Como, já na época, eu era fanboy do Henry Miller, o que me deixava fora de mim era mesmo a poesia, que eu lia e soltava um NIGGAPLIZ silencioso na biblioteca, enquanto procurava olhares de “te entendo, bichô”, sem muito sucesso obviamente, que só gente louca acha que vai encontrar solidariedade em livro ou biblioteca ;D

Mas é como diria o próprio Corsinho

The spark of poetry is
within us all
The poem is
the within brought without
A poet is born a
human being
A human being is
not born a poet
It’s the spirit
distinguishes the child from
the child Shelley
“He was not as other men
marked his peers”

Corso by Ginsberg

Com o tempo (e os saldos da feira do livro e o surgimento do meu fluxo de renda), eventualmente comprei (e, admito, afanei. mas não de bibliotecas. sou digna) alguns desses poemas que me fizeram boom mental. Nem sempre meus favoritos, coisa que tento remediar rebaixando o teto do vizinho com sobrecarga.

De toda forma, Corsinho. Quando conheci Moxão, falavamos muito de Corsinho. De como ele ia na casa dos amigos e saía pegando o dinheiro pra si, já que acreditava que dinheiro não tinha dono, era do mundo. E de como botava fé que uma boa amizade envolvia oferecer sua mulher aos amigos em sinal de alegria esquimó. E de como ele era feio pacas, possivelmente o beat menos descolé em seus modos visuais. E realmente sofrido e maluco. E de como ele é um poeta foda e sempre foi muito pouco valorizado.

Irónicamente (e o mesmo aconteceu com Hilst), depois de morto (em 2001) mais gente começou a pagar pau pro maluco-sublime. E se tu acha que eu vou falar mal disso não sacou nada que escrevi até aqui. Quero mais que leiam regozijem façam abluções.

Aqui tem um GoogleBooks com poemas dele, aqui uns poemas e comentários legais (de onde roubei uma das imagens) e poema roubei daqui. Infelizmente, que eu saiba, em português só tem edição antiga da L&PM (que talvez tenha sido relançada em pocket, nem procurei, de Gasolina e Lady Vestal, essa que eu li na biblioteca e depois comprei em saldo na Feira do Livro).

For Homer

[Gregory Corsinho]

There’s rust on the old truths
-Ironclad clichés erode
New lies don’t smell as nice
as new shoes
I’ve years of poems to type up
40 years of smoking to stop
I’ve no steady income
No home
And because my hands are autochthonic
I can never wash them enough
I feel dumb
I feel like an old mangy bull
crashing through the red rag
of an alcoholic day
Yet it’s all so beautiful
isn’t it?
How perfect the entire system of things
The human body
all in proportion to its form
Nothing useless
Truly as though a god had indeed warranted it so
And the sun for day the moon for night
And the grass the cow the milk
That we all in time die.
You’d think there would be chaos
the futility of it all.
But children are born
oft times spitting images of us
And the inequities
millions doled one
nilch for another
both in the same leaky lifeboat
I’ve no religion
and I’d as soon worship Hermes
And there is no tomorrow
there’s only right here and now
you and whomever you’re with
alive as always
and ever ignorant of that death you’ll never know
And all’s well that is done
A Hellene happiness pervades the peace
and the gift keeps on coming…
a work begun splendidly done
To see people aware & kind
at ease and contain’d of wonder
like the dreams of the blind
The heavens speak through our lips
All’s caught what could not be found
All’s brought what was left behind

(os dois brindes são, Corso em NY em 93 lendo o poema, banguele as usual, com musica de Nicholas Tremulis e abaixo o trailer de Corso: The Last Beat, muito mal falado no IMDB, sem som no Youtube, que função, mas né, tentarei baixar, se existir).
Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

XXX Files

Posted in maconha, nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 14 de junho de 2010 by mari messias

Então, eu tenho uns amigos que mandam os melhores links. Mas, veja, o papo atual desses amigos é sobre como a indústria da pornografia tem feito uso da paródia para tentar fugir da crise. Os malandrinhos vão pensar que isso sempre rolou, mas agora o lance é mainstream.

E saca que, a paródia, disse a Hutcheon, é a forma pós-moderna perfeita pq enaltece e questiona o objeto parodiado, que é a síntese do negócio. Tu diz que isto também te constitui, mas questiona qualquer valor que pudesse ser visto como inegável ao lance todo.

Marromeno isso.

E daí o Zizek chega e diz que a pornografia é um gênero que paga de livre, onde tudo é permitido, mas é, em essência, altamente conservador. O argumento dele é que podemos ver de tudo, em todos os ângulos, mas não nos é permitido nos engajar emocionalmente com a trama.

We cross one threshold, you can see everything, close ups and so on, but the price you pay for it is that the narrative with justifies sexual activity should not be taken seriously.

E digo tudo isso pq vendo o trailer GENIAL de The Big Lebowski me perguntei até que ponto a fusão desses dois gêneros que são impiedosos, questionadores, marginais, enfim, são os bullys sociais de qualquer arté, não acarreta em desdizer o que Zizek afirmou aí em cima e, possivelmente, alterar toda a mentalidade do espectador de XXX.

Ou só dificultar a idéia original. Mas, sei lá, só pensei. Concluí nada, não.

Desobediência Civil Capitalista

Posted in nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 4 de maio de 2010 by mari messias

Uns posts/anos atrás eu citei, por cima, o Albert Spaggiari. Mais como piada de mim para mim que como referência real. Então hoje, lendo sobre o Enric Duran, resolvi oferecer um puxadinho na bloga para tão nobres figuras.

O que eles tem em comum? Ficaram conhecidos por crimes não violentos contra instituições financeiras, ie, bancos. O que, bem ou mal, nos bota pensativos bagarai. Em ambos os casos foi intencional nos colocar pensativos, respeitando os limites de seus tempos e autores.

Spaggiari foi o criador do motto clássico: Sans armes, ni haine, ni violence (sem armas, nem ódio, nem violência) e Enric Duran é conhecido como Robin Bancs, Robin Hood moderno, Robin Banks, Robin Hood dos Bancos, por aí vai.

Spaggiari foi um french maroto que, em 1976, fez aquele que ficou conhecido como o maior roubo do século (passado). Mas ele tinha uma alma de poeta, saca. Rezalenda que o primeiro roubo dele, na tenra juventude, rolou pra dar uma jóia pro seu, então broto. Aliás, os brotos foram um problema na vida do cara, acompanhe. Depois disso ele foi ser paraquedista sei lá onde pra não ter que ir preso. Na volta pra França não abandonou a revolução armada, e foi logo escolhendo a revolução mais escrota: pra fazer a Argélia permanecer francesa. E por isso ele foi preso. Pra aprender a deixar de ser babaca. Ou quase.

Então, provando que a alma de poeta continuava ali, ele abriu um studio de fotografias. Os jovens (salvo pelos arté) não devem saber, mas naquela época as fotos tinham uma tecnologia que envolvia FILMES e  REVELAÇÃO (não divina, enfim, SE INFORME). Mas tem gente que diz que era só fachada. De toda forma, que fachadinha, né manô: vou simular que não sou criminoso fazendo POESIA. AVÁ.

Daí, do seu cantinho de artista, todo bolorento e muquifento, ele bolou um negócio genial. Sério. Genial mesmo. Não tou exagerando, JUROR. De chorar pedrinha no canto. De escrever poesia sobre. De transformar em origami e abraço apertado. Ele descobriu que os esgotos levavam lá pro banco Société Générale e começou a cavar um túnel logo embaixo do cofre do dito. Reza a lenda que logo antes disso ele tentou apoio da máfia local e nem rolou, daí ele construiu sua própria máfia cheia de especialistas em vááárias coisas: pedras preciosas, bombas, cofres, enfim, tudo que rapeize precisa.

No dia das comemorações da Bastilha que é tipo O VINTÊ do mundo quase real, eles entraram no cofre na maciota, armaram um piquenique com vinho e patês, abriram os cofres, analisaram os contiudos, pegaram o que queriam, ficaram transportando, de sobra colocaram fotos comprometedoras de políticos e/ou Tio Patinhas pelas paredes, escreveram o motto aquele do lado (sans armes, ni haine, ni violence),  deixaram o resto do piquenique SÓ DE DESAFORO e deram o vazare.

Genial, né?

Pobrema foi que Spaggiari, como todo cara massa, curtia mina-loca. Então ele demorou meses cavando esse túnel e a ML achou que ele tava, ÓBVIO, com outra ML. Que é SÓ o que mina-loca pensa, nós dois sabemos disso. E, tipo, passar madrugada de feriado fora de casa FOI A GOTA DAGUA e a mina-loca dele ligou pra PULIÇA no dia que ele invadiu o cofre dizendo que ele tinha sumido. E no dia seguinte, procurando pistas no estilo STABLER CONTRA O CRIME eles uniram os pontos e PAFE.

Lá foi nosso herói preso.

Mas aí no dia do julgamento, manô, sujeito começa a dar um discurso sem lógica na frente da juíza. Levanta, fala nada com nada, faz longas pausas, muita linguagem corporal (licença, tou visualizando aqui), se apóia na janela para chorar, volta, corre em direção a janela e pula. Todos acham que ele tentou se matar. Mas ele caiu em um carro, subiu numa moto e fugiu.

Teve prisão perpétua decretada, mas diz o cara que escreveu o livro sobre ele e que, reza a lenda, o entrevistou em Paris, que foi parado por um puliça no dia que todo o país sabia que ele estava indo se encontrar com o Albertão e o poliça sorriu e desejou sorte. Saca.

Hoes recognize, niggaz do too.

Quer mais? Outra célebre frase do Spaggi era “Tout me fait rire”. Descobriu o segredo da vida, saca? Sujeito morreu na Itália, aos 56 anos, fugiu da frança do lado da mina-loca que denunciou ele, cheio da grana, fez umas plásticas, enfim, la vie, esta folie.

Bom, saiu filme. Tava passando um dia 4 da manhã no TC Cult, dormi, obvio. Recomendo. Mesmo que seja uma merda.

Bow down to the King of kings.

Então chegamos, finalmente, no Enric Duran. O cara é catalão. Galerinha da Catalunha é pobrema, todo mundo sabe.

Começa com o papo de eles lutarem com machete na mãozinha bonitinha deles por um idioma. Porra, me larga, eu vejo assim.

Mas aí esse cara é de uma cidade perto de Barcelona (chama Vilanova i la Geltrú) e, rezalenda, que ficou estudando anos maneiras de fazer o que fez, feito o Spaggiari. Então, de 2006 até 2008, ele pegou 68 empréstimos pessoais em bancos, totalizando 492,000 euros. Em 2008 ele saiu do armário como um ativista anti-capitalista e disse: Oh, rapeiz, peguei na maldade e nem vou pagare. Pra vocês aprendere.

Na real foi mais massa, ele escreveu um artigo chamado, marromeno: “Eu roubei 492,000 euros de quem mais nos rouba para denunciar essa galerinha e construir algumas alternativas viáveis pra sociedades” e tu pode ler aqui em inglês. No negócio ele explica que queria, com isso, chamar a atenção pro sistema financeiro bizarro que vivemos, onde é impossível normalmente pra qualquer pessoa conseguir essa soma de dinheiro e, mesmo assim, os empréstimos estão aí, super facilitados e tributados. Ele oferece um monte de possibilidades de take action, pra quem quer se engajar e viabilizar uma construção alternativa ao modus operandi financeiro atual. Mas ele diz que, se tu não quer fazer isso, faça ao menos o seguinte:

– não pegue nenhum empréstimo e tire todo o dinheiro de bancos.

E ele distribuiu isso em uma espécie de jornalzinho ou revista, pelo que li, que chamava Crisi. Enfim, na publicação ele também explica como gastou o dinheiro que afanou sistematicamente. Diferente do Spaggiari (outros tempos, outras metas, outros heróis), o Duran não tomou tudo pra si. Ele usou uma parte pra imprimir a Crisi, que é uma espécie de manifesto da causa com o dinheiro do inimigo. E, saca só, eu fiquei sabendo que esse cara existia num blog de um brasileiro que pegou o jornalzinho de um amigo não-sei-que que ele encontrou em Portugal. Emocionante, né?

Além do jornal, o Duran também doou uma grana prumas instituições que buscavam alternativas ao sistema capitalista e que ele curtia (são várias, SE INFORME), mas nem disse quais pra evitar problemas e devoluções forçadas.

O Duran foi preso, mas pelo que entendi foi por ter usado documentação falsa em alguns dos empréstimos. Vocês podem ler mais online em vááários lugares, inclusive em português (google it, bitch). Mas oficial tem a revista PODEM pra ler online em várias línguas, aqui link em inglês. Também tem o  blog dele.

Ah, o título do post é uma expressão que ele usou lá no manifesto original. E E E E E sabe quem ele me lembra  (e que gosto tanto)?

Como diria POUND:

ATENTE para o som que isso faz.

Homem que não vive da glória do passado

Posted in degredo no olimpo, deveras pessoais, idéia não tem dono, maconha on 13 de abril de 2010 by mari messias

There’s always some post-modernist twist, you bitch!

Gogol Bordello

Uns anos atrás eu voltei pra casa MALUCA com a possível confirmação de que todas as interações humanas fossem encenadas. Sim, eu sou uma ingênua. Isso surgiu de uma conversa com minha então professora de Literatura Oral, Tettamanzy, e me arrebatou pq coincidiu com o que veio a ser só o começo de uma graaaande maconha minha sobre quem somos, como somos percebidos socialmente e os nuances ficcionais de todos os relacionamentos humanos.

Como eu tenho um amigo queridíssimo do meu coração que estava fazendo mestrado “em performance”, fui implorar uns conselhos. E, como sempre, ficamos horas pirando o cabeção mutuamente. Mas neste dia ele me falou de um negócio que chama twice-behaved behavior, que falaria da repetição de comportamento, ie, um comportamento que nunca aconteceria pela primeira vez. Logo, ele seria encenado, nunca espontâneo, sacou? E isso seria arte, performance. Mas isso também é vida, concluiu o sujeito lá do negócio que fui ler depois que meu amigo me falou isso. Ou ainda, ouso dizer, isso é mais vida que arte, como acabamos notando se vemos uma peça de teatro duas vezes ou pensamos nos shows do Monk ou em qualquer show que valha a pena.

Claro, pra essas coisas não serem só um amontoado de WTFs, chegamos no que o Cummings chamou de ser “obsessed by Making”. Que estou para conhecer alguém que seja bom em qualquer coisa [incluindo na vida] e não passe por issae. Mas, né, também disse o supracitado: “This may sound easy. It isn’t.”

Pra mim, as boas obras de arte ao vivo são aquelas que não se fazem sempre exatamente iguais, pra isso temos CDs e filmes. Ao vivo alguns de nós esperam mais. Ao menos da arte, já que normalmente não esperamos mais da vida, que deprê, né?

Não nos sentimos nem um pouco babacas ir nos mesmos lugares, semana após semana, ouvindo as mesmas coisas, falando as mesmas coisas, simulando a mesma novidade. Pelo contrário, sentimos um certo conforto nisso. E deve ser por este mesmo motivo que alguns de nós ainda ficam desconfortáveis quando o guitarrista não faz o solo que sabem inteiro e planejaram toda a semana reproduzir [com a boca].

E é por não sermos exatamente iguais que nem todos concordamos que este seja o papel da arte na nossa vida. Nem da auto-reprodução perfeita, nem da linearidade, nem da previsibilidade, nem do afago, nem da seriedade sorumbática e aristotélica. Não que eu não ame o Arista, queridão. Mas, né, tumba do canône é tão 90s, amigo.

Sobre isso, disse ali o Kafka:

“Se o livro que estamos lendo não nos acordar com uma pancada na cabeça, para que o estamos lendo? Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser banidos para florestas distantes de todos, como um suicídio. Um livro tem que ser o machado para o mar congelado dentro de nós.”

Então eu decidi escrever isto voltando de uma viagem, lendo Eagleton falar sobre o fim do desespero diante da noção de que a vida não tem significado intrínseco, nem linearidade, que é o que vivem os pós-moderninhos. E o que ele diz me pareceu bastante claramente a síntese da angústia de alguns dos espectadores diante da última peça da Cia Espaço em Branco, que dá nome ao post, Homem que não vive da glória do passado. E que é a peça deles que eu mais gostei, claro, que sou anti-pop-alerta.

Então, como me ensinou meu amigo João Ricardo, a vida imita a performance, mas onde o ego é substituído pelo Making. E aí, bom, não curtir é só um dos resultados possíveis. E tentarei não julgar ninguém por isso, claro:

Postmodernism, by contrast, is not really old enough to recall a time when there was truth, meaning, and reality, and treats such fond delusions with the brusque impatience of youth. There is no point in pining for dephts that never existed. The fact that they seem to have vanished does not mean that life is superficial, since you can only have surfaces if you have dephts to contrast with them. The Meaning of meanings is not a firm foundation but an oppressive illusion. To live without the need for such guarantees is to be free. You can argue that there were indeed once grand narratives (Marxism, for example) which corresponded to something real, but that we are well rid of them; or you can insist that these narratives were nothing but a chimera all along, so that there was never anything to be lost. Either the world is no longer story-shapped or it never was in the first place.