Arquivo de fevereiro, 2010

Fim de ano

Posted in idéia não tem dono on 28 de fevereiro de 2010 by mari messias

É, eu sei, o ano acabou (ou começou) tem tempo. Até o tigre chinês já está na área e tudo mais. Mas em breve (brevíssimo) começa março, com fúria implacável, como é seu costume. E, bom, ninguém deveria ler Borges domingo de noite (ainda que a noite seja uma festa longa e solitária, travestis), mas vá, eu uso meu chapéu como eu quero. Domingo, sexta, feriados, pouco me importa. E fiquem com o começo do processo de uma vida melancólica do velhaco. Mas não levem muito a sério, né. Não estar completo é só sinal de que ainda se respira. E me perdoem os asmáticos (eu edito post mesmo, me larga).

Nem o pormenor simbólico
de substituir um três por um dois
nem essa metáfora baldia
que convoca um lapso que morre e outro que surge
nem o término de um processo astronômico
atordoam e minam
o páramo desta noite
e nos obrigam a aguardar
as doze irreparáveis badaladas.
A verdadeira causa
é a suspeita geral e difusa
do enigma do Tempo;
é o assombro diante do milagre
de que apesar de infinitos acasos,
de que apesar de sermos
as gotas do rio de Heráclito,
algo perdure em nós:
imóvel,
algo que não encontrou o que buscava.

Jorge Luis Borges

R.I.P. José Mindlin

Posted in idéia não tem dono, o mundo (essa folia) with tags on 28 de fevereiro de 2010 by mari messias

O país precisa de mais gente como o Mindlin, gente rara.

Tinha pena de quem não dava o devido valor aos livros e não sabia o que estava perdendo, o prazer que os livros podem proporcionar.

E as bibliotecas podem bem fazer isso conosco, nos tornar melhores.

Nunca me considerei o dono desta biblioteca. Eu e Guita (esposa já falecida de Mindlin) éramos os guardiães destes livros que são um bem público.

(…)

Olha, eu acho, que é uma coisa que nos Estados Unidos é comum, a pessoa abrir mão do seu patrimônio em benefício público. Eu acho que no fundo é uma obrigação, não tem nenhum mérito especial, e eu atribuo isso a não ter o fetiche da propriedade.

O bibliófilo doou toda a biblioteca dele pra USP e, apesar de ser da ABL, nunca perdeu a dignidade e o espaço no meu coração. Valeu Velho Mindlin.

Eu tomo a sério as coisas que eu faço, mas a mim eu não tomo a sério. Então a vida é bastante simples.

Nossa cidade é muito grande e tão apequenada

Posted in o mundo (essa folia) on 25 de fevereiro de 2010 by mari messias

Curti muito este post do Marcelo Soares, chama O triste caso da cidade que se apequenou e só notou quando viu a sola do chinelo sobre sua cabeça e cito um pedaço pro leitor não voraz, como a alvorada voraz, já que o leitor voraz vai ler todo, como manda o figurino:

A Cláudia Laitano acha que Porto Alegre está se apequenando. Ela vai direto na jugular do problema:

“Podemos colocar a culpa na Sedac, no fato de a secretária Monica Leal não ter intimidade com a Cultura ou na constatação óbvia de que o atual governo do Estado não considera a área cultural um assunto realmente relevante, mas é preciso levar em conta que boa parte da culpa desse marasmo é de todos nós que vamos ao cinema e frequentamos (ou gostaríamos de frequentar) centros culturais. Minha sensação é de que Porto Alegre está “se apequenando”, se conformando com o marasmo da cena cultural como um todo, com poucos cinemas com programação fora do mainstream, com poucos centros culturais atuantes, com pouca ou nenhuma política cultural pública. A cidade está encolhendo, e nós com ela. E a área cultural é o melhor indicador desse fenômeno.”

Eu cheguei à mesma conclusão, também – e já faz dez anos. Meu sogro chegou à mesma conclusão também, depois de conhecer a oferta de programação cinematográfica de São Paulo e de ver que, por mais obscuro que seja o filme, sempre tem gente assistindo. E não é um ou dois.

O processo de apequenamento de Porto Alegre vem ocorrendo há anos, e é surpreendente que os remanescentes precisem do baque do fechamento da sala Norberto Lubisco para constatar isso. Eu comecei a notar isso no final dos anos 90, quando a banca da Praça da Alfândega deixou de ser a melhor da cidade. Se há 15 anos ela tinha todas as revistas importadas mais fascinantes e jornais do Brasil inteiro, hoje ela é especializada em vender apostila de concurso público e DVD pornô. Depois, os cafés da Rua da Praia começaram, um a um, a virar financeiras de empréstimos com crédito consignado.

Rolava um sucateamento muito claro, mas o discurso oficial era que o Rio Grande ainda era grande. O problema fundamental é econômico – grande parte do boom imobiliário de Porto Alegre nos últimos anos se deve ao preço internacional dos grãos plantados no interior. Na cidade, as oportunidades estão em fazer concurso público. O pessoal que gosta do desafio de criar e empreender, como bem lembrou o Alexandre de Santi no primeiro comentário aí embaixo, acaba desistindo de dar murro em ponta de faca e vai embora. E é esse pessoal que movimenta bons cinemas, boas livrarias, boas bancas.

(…)

Foi uma mediocridade arduamente conquistada com muito esforço da parte de cidadãos, governos, empresas e imprensa. Mérito é mérito. Sirvam suas façanhas de modelo a toda a Terra.

Comoção

Posted in idéia não tem dono, o mundo (essa folia) on 23 de fevereiro de 2010 by mari messias

Então as pessoas tem se manifestado sobre o fechamento da Sala Norberto Lubisco. Acho massa bagarai, tendo em vista que é a primeira vez em anos que vejo as inúmeras decisões questionáveis que são tomadas em relação a cultura de onde eu vivo (Porto Alegre – RS) serem debatidas.

E por isso, vou dar minha opinião sobre algumas coisas mais. Sobre os  que dizem que não entendem por qual motivo as pessoas se comovem, se as salas estavam sempre vazias, e sobre os que dizem que não entendem por qual motivo as pessoas se comovem se a mesma só foi fechada para reformas.

Pois então vamos lá, vamos nos comover.

Primeiro de tudo, as pessoas se comovem porque se acham no direito de manter os ambientes culturais que lhes restam. Não que estejam exigindo mais ambientes culturais, ou mesmo novas posições diante da cultura. Não que estejam exigindo que os espaços culturais existentes sejam melhor mantidos, nada disso. Só o que se demanda é que se mantenha o que já se tem.

Claro, se vamos viver em um estado libertário serei a primeira a achar excelente e apoiar, mas pedirei que comecemos cortando dos meus impostos, já que enquanto eu pagar impostos alibertários, demando obrigações governamentais alibertárias.

E, se os romanos nos ensinaram alguma coisa além de Latim, danos psicológicos permanentes e incesto, foi sobre dominação cultural.

Obviamente eu acho que se confunde muito um posicionamento do Estado diante da cultura com paternalismo. Acho imbecil pensar assim, mas isso deixaremos pra outra hora e, espero que, pra pessoas mais inteligentes e mais bem informadas que nós.

Mas, voltando, o segundo tópico pede duas informações aos crentes. “Ora, mas não entendo o alvoroço, a sala só foi fechada para reformas.” Sim, e você chupa cimento achando que é cheetos. Quando um Estado (cuja política de cultura é dirigida por  Mônica Leal, filha do Coronel Pedro Américo Leal) decide que os cidadãos simplesmente não tem interesse em saber sobre os rumos do patrimônio deles (pera lá, eu estava na inauguração da CCMQ, do lado do então velho e agora falecido Quintana, uma criança ranhenta, mas lembro que foi outro governo que abriu, então é do Estado, sacou, binarismo chama) é, no mínimo, bizarro.

Vocês sabem bem quando esta informação entrou na roda. Quando ela foi ao ar na rádio e, graças a isso, quando ela foi ao ar online e, especialmente, quando a família do Norberto Lubisco (que ficou sabendo pelo rádio, pessoas! Polidez é civilidade, quando perdemos a polidez?) se engajou. Então o Estado surgiu e deu seu lado da história, mas não antes, não rolou precipitação. Tanto que muita gente desconhecida chegou aqui atrás de informações, já que elas não existiam em outros lugares, sacaram?

Então que seja pra reforma, acredito mesmo, JURO. Mas o que se prega, aqui, é prestar contas do bem público a quem se deve: ao público.

E outra, falamos de reformas como se fosse algo simplório. Isso só pra quem vive no mundo da reforma do parquet da sala, que detona a casa e o nariz, mas é rapidinho, vai. Nesse caso, deixa ver, podemos citar o exemplo do Araújo Viana (do município) que está fechado para reformas desde de 2005. E nada ainda. Nossa, adorava freqüentar o Araújo Viana. Mas pra que alvoroçar, é só uma reforma, po.

Claro, Sala Norberto Lubisco não corre este risco se tu acredita que os governos diferem muito. E, neste caso, a única saída possível é ver a arte como apenas mais uma vertente do capitalismo que não está fazendo valer seu custo benefício. Sobre uma situação bem similar, disse um artista russo que agora fiquei em dúvida quem era exatamente, mas a frase nunca esqueço, resumo de uma época: “Foi a desforra dos imbecis”.

E, bom, pra finalizar eu não poderia deixar de falar dos meus ermãozinhos e ermãzinhas irónicos que se deparam com todos os assuntos do mundo com aquele olhar meio de lado, já saindo, indo embora, de quem não se compromete. Como se toda entrega fosse patética. Sobre  isso, DFW, pelos bracinhos do Moxão (de quem sinto saudades mortais) me ensinou que:

All U.S. irony is based on an implicit “I don’t really mean what I say.” So what does irony as a cultural norm mean to say? That it’s impossible to mean what you say? That maybe it’s too bad it’s impossible, but wake up and smell the coffee already? Most likely, I think, today’s irony ends up saying: “How very banal to ask what I mean.” Anyone with the heretical gall to ask an ironist what he actually stands for ends up looking like a hysteric or a prig. And herein lies the oppressiveness of institutionalized irony, the too-successful rebel: the ability to interdict the question without attending to its content is tyranny. It is the new junta, using the very tool that exposed its enemy to insulate itself.

Então, me perdoem a comoção , mas é uma questão de educação (e rima pobre).

Lubisco

Posted in o mundo (essa folia), rubens ewald tchora on 20 de fevereiro de 2010 by mari messias

Tu sabe quem foi Norberto Lubisco?

Todo portoalegrino sabe quem foi ou o que (é) foi Norbert Lubisco. Mesmo praqueles que desconhecem que o sujeito Norberto Lubisco foi um diretor de fotografia que, por “pelo menos por duas gerações, não se esquece tão fácil”. E isso “não só por seu talento ou conhecimento técnico, mas também por sua paciência e facilidade de ensinar”. E olha que gaúchos, ou sulriograndenses, adoram denegrir conterrâneos, diz a lenda. Não que eu saiba. Mas esquecemos fácil, isso é fato.

essa foto peguei do blog do Ricardo, filho do Norberto, clickando nela tu vai pro blog dele

Quer apostar?

Aposto que em menos de um ano ninguém mais, salvo meia dúzia de malucos (90% destes eu chamo de amigos TRU), lembra da existência da Sala Norberto Lubisco. Poisé, no passado. Isso acorre tendo em vista que hoje, ou ontem, já, ela foi fechada, na calada, secretamente, por nossa governadora. Yeda, que não só é motivo de chacota no resto do país, mas que também me fez ouvir inúmeras vezes a pergunta: “é verdade que ela da cabo de sujeito?” pelos estados da nação federativa de meu Zeus.

Sentiria vergonha se privasse de conceito de nação. Como não privo, guardo toda a minha vergonha pra feitos como este, fechar a Norberto Lubisco. Que vergonha, Yedão, ein. Na camufla. Imagina o que vão me perguntar agora: “É verdade que além de constranger o NovaCorja a fechar diante de ameaças de morte, ela ainda repudia as demais manifestações culturais com o intuito de parecer mais bonita? inteligente?” Eu, claro, continuarei respondendo que não vi nada, são boatos.

Leiam o texto do Noah e pensem nisso. Morro de vergonha. Imaginem quanto Fogaça paga pra Yeda ser transloucada, pra ele poder fazer a merda que quiser sem ninguém notar. Sério, fui pro Alagoas. Beijs

[aaaaaah, tu também pode participar da campanha #LUBISCOFTW ou #NORBERTOLUBISCO no twitter, vailá, monero-a]

Aproveitando que a cidade estava vazia, a Secretaria de Cultura do Governo do Estado do RS fechou sorrateiramente a sala NORBERTO LUBISCO da Casa de Cultura Mário Quintana neste janeiro. Sim, fechou fechado, para não abrir mais. Junto da sala, três dos dez funcionários do cinema da CCMQ foram demitidos, sobraram sete.

Ninguém, nenhum jornal, nenhum programa de TV ou rádio noticiou essa catástrofe.

Então, nesta próxima semana farei uma série de reportagens e entrevistas para o programa que estou conduzindo esse mês, ao meio-dia, na Rádio Ipanema FM, o ‘N Coisas’. Gostaria de contar com a ajuda daqueles que, como eu, não aceitam isso calados e exigem um posicionamento dos responsáveis por esse atentado à cultura de Porto Alegre. Quem tiver algo a dizer, contribuir, informar, etc. pode mandar para mim.

Por fim, gostaria de lembrar que a sala Norberto Lubisco leva o nome do “fotógrafo gaúcho que marcou por mais de três décadas a nossa produção cinematográfica e teve seus trabalhos inúmeras vezes premiados com Kikito de melhor direção de fotografia no Festival de Cinema de Gramado”.
Esta sala é (ou ‘era’?) uma da mais charmosas da cidade e a última com suas portas voltadas para a calçada (Rua dos Andradas). Ressalto também que ela, mesmo fechada, está em perfeitas condições de uso – projetor, assentos, ar-condicionado – contando com 53 lugares.
Eu não admito isso assim dócil, aquela sala é nossa!
E você, que tal? Avante, pessoal!

Obamizer

Posted in o mundo (essa folia) on 4 de fevereiro de 2010 by mari messias

Poisé. Eu lembro que quando Obama fazia sua campanha [e quando ganhou] e eu postava por aqui que, ok, talvez um novo mundo seja possível, mas não, não era esse que vocês estavam pensando e tampouco Obama era o mensageiro esperado sofri uma série de hostilizações por comentário, telefone, msn, via pública. Hshshs.

Mas, vide bem, ermãozinho, vide bem. Eu não sou exatamente amarga. Eu acredito que temos lá nossos pontos doces, nossos pontos belos. Que nós, pessoinhas, podemos fazer as coisas mudarem aos poucos, algumas, solitariamente. Sistemas de mudança sempre esbarram em ego, em hierarquia, em necessidade de controle, em mentirada. E tabefes. Quando tem Alagoano no meio. Ou Chinês. Ao menos.

Taí a America Latina que não nos deixa mentir, né. Nós tivemos nossos Obamas anos antes e podemos dizer: o engôdo que pasta por aqui também pasta por lá. Mas chega disso.

Então agora que a merda está selada e comprovada, me atenho a citar um texto e deixar o link pra gerau. E um beijo sofrido, que quis muito ter estado errada, Zeus é minha testemunha. Sempre.

It was a moment rare in a democracy’s history. The feeling was palpable–to supporters and opponents alike–that something important had happened. America had elected, the young candidate promised, a transformational president. And wrapped in a campaign that had produced the biggest influx of new voters and small-dollar contributions in a generation, the claim seemed credible, almost intoxicating, and just in time.

Yet a year into the presidency of Barack Obama, it is already clear that this administration is an opportunity missed. Not because it is too conservative. Not because it is too liberal. But because it is too conventional.

[…]

For again, as Obama said:

If we’re not willing to take up that fight, then real change–change that will make a lasting difference in the lives of ordinary Americans–will keep getting blocked by the defenders of the status quo.

The Day the Music Died

Posted in ieieie on 3 de fevereiro de 2010 by mari messias

Dia 3 de fevereiro de 1959 Ritchie Valens, Buddy Holly e Big Bopper morreram em um acidente de avião. Em 1971 Don McLean gravou American Pie e o dia ficou conhecido como o dia que música morreu. É, tu lembra, Madonna regravou, seu jovial cafona.

A long, long time ago…
I can still remember
How that music used to make me smile.
And I knew if I had my chance
That I could make those people dance
And, maybe, they’d be happy for a while.

But february made me shiver
With every paper I’d deliver.
Bad news on the doorstep;
I couldn’t take one more step.

I can’t remember if I cried
When I read about his widowed bride,
But something touched me deep inside
The day the music died.

Então, taí a lembrancinha e a homenagem:

“Three Stars” is a song written by Tommy Dee and first recorded by EDDIE COCHRAN in 1959 as a tribute to Buddy Holly, Richie Valens and the Big Bopper.