Arquivo de junho, 2010

Viagem

Posted in degredo no olimpo, idéia não tem dono on 23 de junho de 2010 by mari messias

Dizemos que há um modo Rinzai e um modo Sôtô, a prática Hinayana e a prática Mahayana, o buddhismo e o cristianismo. Contudo, se você praticar qualquer um deles, como se estivesse saltando de um lado para outro do universo, nenhum o ajudará muito. Se tiver a compreensão correta de sua prática, tanto faz se tomar um trem, um avião ou um navio, você apreciará a viagem.

(Shunryu SuzukiNem Sempre É Assim)

Daqui

one winter afternoon

Posted in idéia não tem dono on 21 de junho de 2010 by mari messias

One winter afternoon
(at the magical hour
when is becomes if)
a bespangled clown
standing on eighth street
handed me a flower.
Nobody,it’s safe
to say,observed him but
myself;and why?because
without any doubt he was
whatever(first and last)
mostpeople fear most:
a mystery for which i’ve
no word except alive
—that is,completely alert
and miraculously whole;
with not merely a mind and a heart
but unquestionably a soul-
by no means funereally hilarious
(or otherwise democratic)
but essentially poetic
or etherally serious:
a fine not a coarse clown
(no mob, but a person)
and while never saying a word
who was anything but dumb;
since the silence of him
self sang like a bird.
Most people have been heard
screaming for international
measures that render hell rational
—i thank heaven somebody’s crazy
enough to give me a daisy

e.e. cummings

[solstício de inverno, dia mais escuro e mais longo do ano, comecemos bem. Yey]

R.I.P. Saramago

Posted in ieieie, o mundo (essa folia) on 18 de junho de 2010 by mari messias

Acordei, li a notícia e fiquei a última meia hora pensando sobre a morte do Saramago. Quem convive comigo sabe minha opinião: fez 3 livros que eu curti, depois virou comentarista de tudo (tipo o Caetano), se achava o maioral em um mundo de toscos (ainda se fosse o maioral) e via todo futuro como negro (sou integrada, bro). E eu prefiro Lobo Antunes. Que Saramago e Lobo Antunes é tipo Beatles e Stones, Oasis e Blur, West Coast e East Coast.

Não acho que ele tenha feito nada relevante ultimamente. Na real, ele criou mais textos pra PowerPoint que o Paulo Coelho, mas né, galere ta nem aí pra isso. Ele já tinha morrido em sua relevância pra mim faz tempo, mas, vá, ali onde agora tem um presuntto, outrora esteve a mente que escreveu O Ano da Morte de Ricardo Reis, Cerco de Lisboa, enfim. E isso não é pouca coisa.

P.S.: Seguindo na ceifa, esta semana também nos levou Gary Shider, do Parliament-Funkadelic. Saudemos tão nobre vida da melhor maneira: ganhando a pishta.

Be a Nose!

Posted in quer que desenhe? on 15 de junho de 2010 by mari messias

Do Art Spiegelman, só nos estrangeiros.

XXX Files

Posted in maconha, nadavê véiô, o mundo (essa folia) on 14 de junho de 2010 by mari messias

Então, eu tenho uns amigos que mandam os melhores links. Mas, veja, o papo atual desses amigos é sobre como a indústria da pornografia tem feito uso da paródia para tentar fugir da crise. Os malandrinhos vão pensar que isso sempre rolou, mas agora o lance é mainstream.

E saca que, a paródia, disse a Hutcheon, é a forma pós-moderna perfeita pq enaltece e questiona o objeto parodiado, que é a síntese do negócio. Tu diz que isto também te constitui, mas questiona qualquer valor que pudesse ser visto como inegável ao lance todo.

Marromeno isso.

E daí o Zizek chega e diz que a pornografia é um gênero que paga de livre, onde tudo é permitido, mas é, em essência, altamente conservador. O argumento dele é que podemos ver de tudo, em todos os ângulos, mas não nos é permitido nos engajar emocionalmente com a trama.

We cross one threshold, you can see everything, close ups and so on, but the price you pay for it is that the narrative with justifies sexual activity should not be taken seriously.

E digo tudo isso pq vendo o trailer GENIAL de The Big Lebowski me perguntei até que ponto a fusão desses dois gêneros que são impiedosos, questionadores, marginais, enfim, são os bullys sociais de qualquer arté, não acarreta em desdizer o que Zizek afirmou aí em cima e, possivelmente, alterar toda a mentalidade do espectador de XXX.

Ou só dificultar a idéia original. Mas, sei lá, só pensei. Concluí nada, não.

Whatever works

Posted in deveras pessoais, rubens ewald tchora on 4 de junho de 2010 by mari messias

Podia começar esse post com um longo blablabla sobre como Woody Allen voltou a falar de NY, como acho que ele ta criando a paródia romântica ou, quiça, falar sobre a confusão disso tudo com o o eu-narrador-eu-autor, onanismo centenário. Ou ainda, poderia ficar falando dos problemas que vi, do que não gostei, tem várias coisas. Mas, ai, nem ligo. Sinceramente. Mesmo. Me larga. Beijs.

E se você ainda não viu o filme talvez deva parar de ler, possa ser que eu lance algum spoiler e, oh, avisei.

Negócio é: tenho um amigo ariano que, como tal, além de fã de Woody Allen, também se acha um indivíduo super livre. Vamos chama-lo de Tãder. Tempos atrás estavamos trocando poéticas de vida e conselhos (possivelmente muito errados, como é costume aos conselhos) e ele ficou emputecido (sem rancor, que ele é um doce de pessoa) com meus cronogramas e meu super-poder de auto-controle mórbido. Claro, mesmo sendo jovial como todo ariano, ele devia estar ligado que comprimindo e controlando tanto, eu ia acabar implodindo. Então, no seu bom estado de espírito (esqueci de dizer que ele é uma pessoa feliz e muito boa, isso é sempre relevante pra mim), Tdr ficou tentando me obrigar a repetir feito mantra: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”, ao que eu respondia: “Que isso, bro, quem me navega sou eu, merrrmo”. Eventualmente notei que nem sempre.

E digo isso, que pode te soar idiota, pq tu é muito inteligente e maduro, pra falar que acredito que Allen fez outro filme-bula para tentar nos explicar por qual motivo nem sempre somos quem podemos ser.

Talvez o lance seja que ele está velho e tenha tido a epifania do Bauman, que ta inteira aqui, mas cito um pedaço:

quanto mais velho você é, mais sabe que os pensamentos, embora possam parecer grandiosos, jamais serão grandes o suficiente para abarcar a generosa prodigalidade da experiência humana, muito menos para explicá-la.

Não sei.

O que vi foi um filme de enaltecimento do irracional, no prisma que talvez seja de sua competência. E isso sempre foi um poblema.

Ontem sentei pra pensar sobre o filme, na minha pequena catarse não furiosa, não destrutiva, não hormonal, e um poster ficava me dizendo que “O mistério da grande alegria é selvagem”. Normalmente eu ficaria puta da cara com essa frase de efeito. Defina mistério, defina GRANDE ALEGRIA, defina selvagem. E já pensaria em meia dúzia de conceitos de selvagem e de mistério e tentaria entender o grandealegria. Não que eu não tenha entendido a frase, no sentido subjetivo, captou?

Mas como fiquei com aquele filme martelando a meloa, cheguei em casa, bebi resto de vinho olhando a vista e pensando como gostaria de cobrir ela de pronomes possessivos. E tantas coisas e pessoas mais, pronomes possessivos. Se acreditasse neles.

E D.H. Lawrence falou que sexo é saudável, mas quando vai pro cérebro vira doença. Cada coisa com sua parte correta do corpo, tipo isso. Então o mesmo deve servir pro cérebro, é saudável, lindo, me alegra, mas acho que quando vai virando tu inteiro, vira doença, danação, choro e ranger de dentes, etc.

Traduzido no Braziu como “Tudo pode dar certo”, talvez fosse mais adequado como “Quem me navega é o mar, as vezes”.