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Nossa realidade irreal

Posted in deveras pessoais on 4 de fevereiro de 2013 by mari messias

Pela primeira vez desde que criei esse blog não fiz uma postagem de retrospectiva do ano anterior. Eu não sabia bem o que rever nesse passado recente. Meu vício é tentar encontrar sentidos e, ainda que eu me treine para ser menos assim, se treinar para tentar fazer diferente  é também uma decisão pensada.

Adentrando o ano novo, pude pensar melhor que se tem uma coisa que acredito que os últimos tempos tem tentado me mostrar é que vivemos em uma realidade ilusória. Nós consumimos até o nível do impraticável para tentar anular o básico. Quando eu digo consumimos, não estou falando só sobre comprar, possuir. Estou falando, por exemplo, de tratarmos morte com um desespero apavorante, pra evitar lidar com a possibilidade de que ela existe. Quando sabemos que vamos perder o que amamos, tentamos comprar o contrário, comprar o eterno em tratamentos, em fotos, em memórias desesperadas.

E quando perdemos, por fim, é importante viver como se nunca tivesse existido. Ninguém quer ser visto como alguém que vive do passado, mesmo que seja impossível negar que, seja o tempo que for, ele nos constitui.

Estou falando, também, de sentir tanto medo do que nos constitui, das tripas afetivas, que passamos a ver como normal tratar pessoa como mercadoria, fazendo sexo com o mundo ou saindo de um relacionamento para outro. Tudo isso sem nunca parar de acreditar que patético mesmo é sentir qualquer prisma da gama de sentimentos que existem.

Brincar de ser plástico. Ou margarina.

Sentir, começando ou terminando, fodido ou bonito, também é o que nos valida como criaturas que existem.

Ostentar seu consumo de dinheiro, gente ou experiências, me desculpem, mas é só mais um jeito de evitar estar plenamente presente em sua própria vida. E quando acaba, parabéns, você desperdiçou sua chance.

Parece que estamos nos treinando progressivamente como sociedade para não aceitar que vergamos. Tudo verga. Não somos alheios. Isso é o que mais nos deprime.

Somos obcecados por femme fatales e malandros e psicopatas, todos querem ser ou conviver com criaturas desprovidas de suas capacidades mais básicas. Sentir, existir, vergar segundo sopra o vento da sua vida, não ser alheio a nada.

Eu, que nos últmos tempos, fui ACUSADA de sentimental, depressiva e até, pasmem, de ser intensa demais, posso dizer que não sairei desta ilesa. Me afastei pela vida ou pela morte de amigos, amores e uma Filha e eu honro a existência em comum que tivemos me deixando vergar: estando feliz, sorrio; estando triste, choro. Sentindo afeto, manifesto; sentindo desafeto, me afasto.

Acho que esses últimos tempos me deram a capacidade de deixar de ser mais uma a fugir do que me torna demasiado humana. Quando percebi que não existe lucro algum em se sofrer em silêncio, em praticar a alquimia de sentimentos por fachadas visuais, passei a ser mais sincera com o todo e, era isso, sabs. Mas, com isso, pude notar que precisa ser muito foda para existir. Não o suficiente para me fazer querer viver na cenografia mediana, mas o suficiente para me fazer hesitar.

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Hoje, depois de meses sabendo que esta hora estava chegando, perdi minha gatinha Filha. Na verdade, não perdi. Ela morreu. Filha me ensinou muito sobre ser alguém melhor. Quando fomos morar juntas eu a prometi que, se ela fosse morar e ser feliz comigo, nunca mais deixaria que nada de ruim acontecesse com ela. Gosto de pensar que cumpri minha parte do trato, ja que ela mais que cumpriu a sua.

Filha veio morar comigo grávida. Dizem, no bairro onde moravamos, que era a segunda ninhada, pois ela tinha sido abandonada grávida (da primeira, imaginam). Não sei o que ela passou antes, só poderia imaginar. Mas nunca fiz questão.

Sei que, por essas narrativas, resolvi que seu nome seria Filha, pois achei que ela merecia ser Filha, ja que ja havia sido mãe tanto. Sei, também, que depois disso, ela teve cinco filhotes, segurando meu braço com suas garrinhas pequenas durante todo o parto. E sei que, tendo sido abandonada recém nascida, uma gatinha de 3 cores foi trazida para ver se Filha a amamentaria. Disseram os veterinarios que o mais comum é que a mãe mate filhotes alheios a ninhada. Colores, a recém nascida colorida, chegou muuuito magra. Filha viu a gatinha nova magrela e fraca , a cheirou e passou seu bracinho pelo pescoço de Colores, a levando para mamar em seu peito de gatinha.

Depois disso, Filha aprendeu a brincar. Nunca parou, ficou viciada nisso. E trazia os brinquedinhos de volta, feito cachorro. Mais que cordialidade e perspicácia, acho que fazia isso pra agilizar o processor e poder brincar mais em menos tempo. Hahahaha.

Depois disso, voltou a dormir comigo. E o fez durante 99% do tempo que passamos juntas.

E virou uma gatinha cheia de vontades adoráveis, do tipo que gostava de sol, mas só ficava na janela se eu estivesse perto. E uma gatinha empática e amorosa, capaz de dar afeto mesmo para o mais pulha dos pulhas (e, pasmem, capaz de converter mesmo o mais pulha dos pulhas ao afeto).

Ela estava velhinha, mal respirando. Foi pra clínica ontem e, quando cheguei hoje, miou muito. Mas se acalmou me ouvindo cantar a música que cantei para ela ao longo desses 12 anos e recebendo carinho e palavras de amor. E foi dormindo e aquietando, sem nunca deixar de fazer prr. Para seguir a promessa de quando fomos morar juntas, tive que tomar a decisão que ninguém quer tomar: ou deixava a Filinha sofrendo, ou fazia cirurgia, onde ela possivelmente morreria na anestesia, ou optava por antecipar sua morte. Tomei a decisão ouvindo seu prr e  lembrei do Hemingway, lembrei de nunca desistir de ser uma pessoa que sente. Lembrei que amar não é choro e ranger de dentes, mas querer, acima de tudo, o bem.

Obrigada, Filhinha. Sentirei falta, mas isso é menos importante que o percurso lindo o que tivemos juntas e todas as belezas que tu trouxe pra minha vida <3

Have had to shoot people but never anyone I knew and loved for eleven years. Nor anyone that purred with two broken legs.

A crença na fábula do leitor especial

Posted in deveras pessoais on 12 de janeiro de 2012 by mari messias

Nunca como nos últimos, possivelmente, dois meses, me deparei com tanto preciosismo acerca do ato de ler.

Talvez seja só impressão e as coisas não tenham mudado de Homero pra cá, mas isso me causou certo horror. Especialmente por não vir de pessoas das quais eu esperariam isso (ie, das múmias de Alexandria que praticam a libação em Balzac).

Mais ou menos como aquela lista de “motivos para namorar um menina que goste de livros“, quem defende a superioridade do leitor de livro em relação ao resto do mundo acredita em uma espécie de hellenismo mágico, onde foi tocado e escolhido para participar de algo especial (que, como tal, não é para todos).

Não sei se a sensação tem relação com o fato de eu nunca ter feito parte de nenhum tipo de casta superior (nunca tive esse lance de pertencimento com uma elite qualquer, que te projeta para fora do senso comum ao mesmo tempo que te protege de ver que, bom, nada disso é verdade), mas isso me soa como um tipo de balela bastante cansativa.

Primeiro, a não superficialidade sempre foi uma escolha restrita e nunca esteve relacionada com o tipo de comportamento de consumo com o qual tu te identifica (de livros, de discos, de jogos, de comida, de esportes), mas com a abordagem que tu da para tudo isso e mais um pouco que constitui tua vida. Inclusive com conseguir lidar com a tua insignificância/significância e como ela não está ligada com essas bandeiras identificatórias superfluas, afinal.

Segundo, nunca, em tempo algum, vivemos tanto no texto infinito do Barthes: “quer esse texto seja Proust, ou o jornal diário, ou a tela de televisão: o livro faz o sentido, o sentido faz a vida”.  E trivializar a nossa relação com a leitura não me parece, senão, saudável para os hábitos de consumo de conteúdo. O tipo de conteúdo, o formato de conteúdo, sempre relacionados com preferências e temáticas individuais.

Admito que vejo a criação do texto como parte essencial de quem somos hoje e, paradoxalmente, acho ela totalmente conflitante com a maneira como, cada vez mais, vivemos: rapidez em forma e durabilidade. Por outro lado, isso não é privilégio do texto. As imagens, os meios e os comportamentos sofrem o mesmo.

Se o Junot Diaz, por exemplo, demorou 11 anos para criar o docinho Oscar Wao, que eu consumi em 3 semanas, a Bethesda demorou 5 anos pra fazer o Skyrim que podemos consumir em poucos meses e tu demora 5 anos pra conseguir um diploma que vai ser inviabilizado na primeira demonstração prática do assunto aprendido, isso não faz de ti um mártir nem um escolhido para lutar contra a corrente da vida moderna. Talvez faça, sei lá, mais alguém que segue o fluxo contemporâneo que há. Mas, pra mim, isso não tem relevância alguma.

Repito: sou incapaz de identificar self (especialmente self mágico) somente baseada nos hábitos de consumo, sejam eles Franzen, twitter ou roupas.

Pra mim, a compreensão dos prismas narrativos religiosos que vivemos também diz respeito a lidar com a inexistência de messianismo. Nem político, nem social. Aka, a diferença, que é essencial e única constante de existir, não precisa ser hierarquizada para ter valor (o único valor relevante sendo, nesse caso, o individual).

E digo tudo isso pq, acima de tudo, vejo a leitura como algo íntimo. Íntimo no sentido de ser privado e não dizer sobre ti mais que o gosto por, digamos, morangos. E íntimo por demandar intimidade no relacionamento com o que tu vai consumir.

Milhões de anos atrás eu postei aqui falando sobre como um curso de dramaturgia salvou temporariamente minha vida acadêmica fracassada como estudante de letras. Acreditava (e ainda acredito) que, por ser de uma família de teatro, nunca consegui compreender (menos ainda achar aceitável/curtir muito uhu) o distanciamento religioso com o qual algumas pessoas da letras (aí inclusos amantes de livros, teóricos, etc) lidam com seu objeto de afeto. Cresci e ainda o faço vendo gente que refocila no lodo com seu autor favorito (do momento ou da vida).

E entre eles estão os leitores mais aprofundados e frequentes que conheço (sejam acadêmicos, teóricos, amantes de livros, gente do tchatro, etc).

Kalói kai agathói só fica bem até 500 A.C.

Então me desculpem, mas endossar ideais de castas não ta pra mim. Acho apenas triste e enfadonho. Curto meus livros como curto meus outros objetos de culto e amor: mundanos.

A clássica retrospectiva

Posted in deveras pessoais, ieieie on 31 de dezembro de 2011 by mari messias

2011 não foi uma festa, definitivamente. Foi um ano bem complicado.

Contrapondo, uma das primeiras lembranças que tenho do ano é massa demais, uma legítima festa. E a última, espero, seja similar.

Até agora, 2011, pra mim, é Mayer Hawthorne e poucos mas bons amigos (os teimosos e eternos). Em 3 canções (e motivos e sentimentos relacionados bem amplos), meu ano:

Feliz 2012, o ano que os Maias farão contato e os deuses serão astronautas. Desejo que os desejos de vocês nunca os decepcionem, que vocês não sintam frio dor ou fome e que nunca cultuem a idéia de que poderia ter sido melhor/diferente (remember Pangloss, o do cabeçalho).

É isso, nos vemos nas quebradas.

Os ombros suportam o mundo

Posted in degredo no olimpo, deveras pessoais on 16 de novembro de 2011 by mari messias

AVISO: Esse post será muito pessoal (e hermético, possivelmente), não quer ler, vaza. 

Drummond tem um poema, muito amargo, que chama os ombros suportam o mundo, onde ele fala sobre uma época (ou um momento, como eu prefiro ver) no qual não se ama, não se chora, não se sente falta e sequer adianta morrer. Apenas se é, “a vida é uma ordem”.

Admito que hoje, quando acordei no meio de um sonho e falei alto: nonada, era assim que estava me sentindo. E me senti assim muitas vezes nos últimos meses. Porém, não se preocupem, estou longe de me sentir assim sempre e, acredito, não o farei.

Ocorre que nessa vida somos ensinados a ser (e veja que coisa, somente com sentimentos), mornos. Admito que nunca fui muito dessa vibe, veja bem, minha citação favorita do Apocalipse (3’16) é “Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca”. Mas em algumas situações ainda me sinto condicionada a acreditar que é pouco polido sentir. E falar ganha outro peso. E como nada pode ser feito, apenas se suporta o mundo.

Na verdade, em algumas situações os sentimentos extrapolam-se e tem seu sentido original substituído por algum outro, normalmente pior. Vou tentar explicar melhor o que eu quero dizer.

Logo que eu perdi minha amiga, dois meses atrás, resolvi ler e assistir tudo que parecesse minimamente útil, pra tentar entender e lidar melhor com isso tudo. Revi todo o Six Feet Under (de um jeito bem diferente, btw), li uma série de artigos e livros, mas a única coisa das que eu li que me tocou e que eu relembro todos os dias desde então foi da Joan Didion, sobre o novo livro onde narra a morte da filha. Não achei mais a quote original, mas ela dizia algo como: tudo o que eu li sobre luto era muito polido e esqueceu de comentar que luto parece mais loucura que qualquer sentimento que já tenhamos tido.

Identificar essa loucura em processo foi, pra mim, a melhor maneira de tentar domar a dita. Não esperava nem espero sempre conseguir. Não sou maluca de fato. Espero que o sentimento viva seu fluxo, mas criei uma barragem para ele saber que só pode existir dentro do perímetro especificado.

De toda forma, acho lindo e saudável sentir, externar sentimento, só não estou disposta a cair no chão feito um boneco de pano. E foi assim que tenho medianamente conseguido fazer isso.

E acho que o motivo mais especial para querer isso são as pessoas.

De toda forma, se existe um lado positivo nesses momentos da vida é descobrir, no meio de toda essa desolação, as pessoas. Possivelmente por, como disse o Drummond, não se esperar nada, conseguimos ver as pessoas. E acho que isso passa a ser um norte maior.

Nunca fui das pessoas mais crentes que conheço. Leio livros de Zen pq me fazem sentido. Não acredito em reencarnação, nem em carma como milhagem, acredito em tentar viver com compaixão e omildade. Sem esperar nada, mesmo. O mundo não vai me pagar, não vai *PUFF* ficar massa, mas eu acho que isso é o que falta, especialmente pra minha vida (de-mim-pra-mim-saca). E isso, também, tem relação com as pessoas.

Em alguns momentos fica difícil sequer pensar em qualquer tipo de divindade sem sentir coisas palha. Ou pelas pessoas, essas tolinhas, ou pela suposta divindade, essa pau no cu.

Desculpe, acho complicado quem encontra Zeus, Deus, Eus na miséria.

Mas em todos os momentos, bons ou ruins, é possível pensar como um pouco de capacidade de sair de si, abandonar o embigo, torna/tornaria aquele momento melhor/menos pior.

Try a little tenderness, mesmo.

E, bom, não tenho um final pra esse post, que ele é do ramo das coisas reais e segue acontecendo.

Mas como não curtiria ser uma dessas pessoas que simulam que a vida segue ilesa, mesmo com todo solavanco, também não curtiria que esse blog e minha vida como um todo simulasse estar alheio.  É como disse o Eco, e eu cito pela décima nona vez:

Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota.

Então podscrê, nos vemos nas quebradas.

Lemas

Posted in deveras pessoais, idéia não tem dono on 7 de abril de 2011 by mari messias

Acordei com esse poemo do Leminski, repetindo feito música na minha meloa. Convém dar valor as lições que aprendemos em sonho

tenho andado fraco
levanto a mão
é uma mão de macaco
tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo
tenho andado cheio
o copo pelo meio
tenho andado sem pai

yo no creo en caminos
pero que los hay
hay

Excesso de opinião

Posted in deveras pessoais, maconha, o mundo (essa folia) on 28 de novembro de 2010 by mari messias

Absolute truth is a very rare and dangerous commodity in the context of professional journalism. – Hunter S. Thompson

Ontem o Milton chegou aqui em casa eufórico, dizendo que tudo ia mudar graças a uma bomba dos Wikileaks. Eu não botei muita fé, já que a (troco de gênero quanto quiser, me larga) Wikileaks tem mostrado uma infindade de podreiras do mundo, mas nunca recebeu atenção de massa, aquela que MUDA TUDO, e que eles mereciam. Talvez o nome, como MARCA revolucionária (tipo Che), mas as informações nunca vi serem debatidas em mesa de bar por um bando de gente emocionada.

A importância desse medidor da mesa de bar é a seguinte: hoje tu senta em qualquer pé-sujo da Cidade Baixa-Centro e rapaziada sabe tudo sobre Complexo do Alemão e os grandes cabeças criminosas PORQUINHO, MOLEQUE E POLEGAR. E isso é uma rebatida bem triste ao meu eterno nhenhenhe de que não existe uma grande mídia. Claro, cada vez fica mais forte meu péssimo costume de medir pela exceção e a grande maioria das pessoas ainda se alimenta de TV e ZH.

Então, possivelmente os dados da Wikileaks venham a sair na GloboNews, no JN, mas eles vão chegar lá não como dados, essa é a minha angústia, mas como uma opinião. Opinião todo mundo deveria ter. E criar um blog, twitter, whatever, pra debater com os amigos. Claro, também, que tudo passa por um filtro de opinião, mas até que ponto esse filtro, corporativo, não jornalistico, não é uma espécie de profissão de fé? Tipo assim:

O Morro do Alemão já está tomado pela lei (GloboNews)

Isso não é um dado, isso é uma crônica.

E me angustia nessa cobertura que não existe nenhum tipo de distanciamento que me forneça dados para que eu possa formar uma opinião embasada na atual situação. E isso é o que o Wikileaks faz. E fez como o demo agora.

É triste falarmos em overdoses de informação quando nem sempre podemos encontrar informação, soterrada em tanta opinião. E não é por menos que Wikileaks é o dimonho do mundo moderno e os PirateBay (vendidos ou não, um ícone do fluxo livre de dados) tenham sido sentenciados a prisão.

Mais que saber o óbvio, tipo, US tem espiões na ONU, Wikileaks nos pega pelos dados: podemos pensar, temos informação pra raciocinar sozinhos.

Como eu vejo, duas das mais fundamentais funções da internet são libertar a informação e a opinião. Mas a segunda sem a primeira é pros religiosos, rezando pelo RJ, pedindo paz no Oriente Médio. Nós precisamos ter honra. Pelo menos nós que vivemos na beirada, que somos um desvio, que não conseguimos ver opinião como sinônimo de dado. Nossa função humana mínima é sentir essa brisa inadjetivável, sem ignorar os links que estão aí pra quem quiser ler. E opinar.

Leia mais no Guardian

Leia mais no ElPais

Twitter Wikileaks

Texto massa do ElPais sobre a importância Wikileaks pro jornalismo

Aí o vídeo que ta circulando do morador da Vila Cruzeiro acusa polícia de roubar R$ 31 mil:

Minha vida é uma mentira

Posted in deveras pessoais, idéia não tem dono, maconha, rubens ewald tchora on 28 de julho de 2010 by mari messias

Possivelmente, se pararmos pra pensar, o grande ensinamento por trás de quase tudo na vida é a importância de mentir/simular. Star Wars, no fundo, fala sobre aquelas pessoas que conseguem aprender a mentir e aquelas que não conseguem. O ditado que diz que um casamento vale mais que mil mosteiros, em suma, fala sobre o bom senso de duas pessoas que sabem como pode ser gratificante simular com um sorriso no rosto.

Tento aprender (a duras penas) sobre isso desde que, certa feita, o Padawan Juliano começou a insistir na tecla “fake it” pra mim, que defendia a suprema verdade absoluta e contínua como o sublime cotidiano. Enquanto ele dizia isso eu deixava de levar em consideração o dito, falando que ele tava sendo só um gangstamodafoca. Claro, o nível mais sútil raramente é apreendido e se perde na insolência cotidiana. Então, tempos depois, o Last Psychiatrist colocou o tema de maneira mais For Dummies e eu consegui captar:

“Help me, please, I think I’m a narcissist.  What do I do?”

There are a hundred correct answers, yet all of them useless, all of them will fail precisely because you want to hear them.

There’s only one that’s universally effective, I’ve said it before and no one liked it. This is step 1: fake it.

You’ll say: but this isn’t a treatment, this doesn’t make a real change in me, this isn’t going to make me less of a narcissist if I’m faking!

All of those answers are the narcissism talking.  All of those answers miss the point: your treatment isn’t for you, it’s for everyone else.

If you do not understand this, repeat step 1.

Mentir, simular, é a essência de ver e se importar com o outro. E só se importa com o outro quem não é patologicamente imbecil, claro. Por isso, acredito eu, socialmente só existimos por termos essa capacidade incrível de criar ficção que diminui a danação.

E se agora tu te sentou aí no teu cantinho e pensou: HA, eu nem sou um narcisista, beleza, seguirei levando a verdade acima de tudo. Bom, certamente tu é um porco egoísta.

Por outro lado, tu também pode pensar que não precisa mentir, já que quando tu te importa com alguém a verdade é a sempre doce e suave. Além de ser uma mentira imbecil, nós raramente começamos nos importando com os outros logo de cara e o meu ideal é que isso seja universal, saca? O processo que nos leva a criar vínculos é uma longa teia de mentirinhas carinhosas que visam aproximação. De que outra forma tu conseguiria conhecer dobrinhas da alma de alguém, se não por ter passado longos períodos falando frugalidades, imbecilidades e invencionismos com essa pessoa? O romance, a amizade, o carinho, o amor familiar, tudo tem suas bases em pequenas ficções. E a ficção é linda.

Imagina acordar e toda a ficção do mundo ter sumido. How sad. Como delimitar o que é real, pra começar? De toda form, a vida seria bem vazia, eu acho. É como disse Leminski:

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

Mas, enfim, acredito que gradações e intenções moldam tudo, incluindo os meandros ficcionais. Então, talvez o melhor jeito de exemplificar o que eu tou falando blablabla é sugerindo que tu veja The Invention of Lying, num mundo sem mentira, todo mundo é amargo, niilista, direto, sem amor e sem afeto. E sem livros. Nem filmes. Nem jogos de palavras. Um mundo asperger.

For Corso

Posted in degredo no olimpo, deveras pessoais, idéia não tem dono, maconha with tags on 8 de julho de 2010 by mari messias

Como a maioria de vocês, entre infância e adolescência inúmeras vezes acompanhei minha mãe ao seu trabalho e, seguindo eterno costume fetichista e alergênico, ficava me enfiando pelos corredores de uma biblioteca que tinha lá perto. Até pouco tempo atrás ainda mantinha a carteirinha de lá, com a foto ridícula da minha infância e a lista infinita e disléxica de coisas que descobri lá e quase me mataram de alegria.

Um dia, já na adolescência (ainda que não muito), peguei um livro seguindo o princípio do randomismo mágico. Era Corsinho, AKA, Gregory Corso.

Ginsberg, Corso, Rosset

Explodi a cabeça com ele e isso também e me levou pelas ruelas de todos os seus amigs. Como, já na época, eu era fanboy do Henry Miller, o que me deixava fora de mim era mesmo a poesia, que eu lia e soltava um NIGGAPLIZ silencioso na biblioteca, enquanto procurava olhares de “te entendo, bichô”, sem muito sucesso obviamente, que só gente louca acha que vai encontrar solidariedade em livro ou biblioteca ;D

Mas é como diria o próprio Corsinho

The spark of poetry is
within us all
The poem is
the within brought without
A poet is born a
human being
A human being is
not born a poet
It’s the spirit
distinguishes the child from
the child Shelley
“He was not as other men
marked his peers”

Corso by Ginsberg

Com o tempo (e os saldos da feira do livro e o surgimento do meu fluxo de renda), eventualmente comprei (e, admito, afanei. mas não de bibliotecas. sou digna) alguns desses poemas que me fizeram boom mental. Nem sempre meus favoritos, coisa que tento remediar rebaixando o teto do vizinho com sobrecarga.

De toda forma, Corsinho. Quando conheci Moxão, falavamos muito de Corsinho. De como ele ia na casa dos amigos e saía pegando o dinheiro pra si, já que acreditava que dinheiro não tinha dono, era do mundo. E de como botava fé que uma boa amizade envolvia oferecer sua mulher aos amigos em sinal de alegria esquimó. E de como ele era feio pacas, possivelmente o beat menos descolé em seus modos visuais. E realmente sofrido e maluco. E de como ele é um poeta foda e sempre foi muito pouco valorizado.

Irónicamente (e o mesmo aconteceu com Hilst), depois de morto (em 2001) mais gente começou a pagar pau pro maluco-sublime. E se tu acha que eu vou falar mal disso não sacou nada que escrevi até aqui. Quero mais que leiam regozijem façam abluções.

Aqui tem um GoogleBooks com poemas dele, aqui uns poemas e comentários legais (de onde roubei uma das imagens) e poema roubei daqui. Infelizmente, que eu saiba, em português só tem edição antiga da L&PM (que talvez tenha sido relançada em pocket, nem procurei, de Gasolina e Lady Vestal, essa que eu li na biblioteca e depois comprei em saldo na Feira do Livro).

For Homer

[Gregory Corsinho]

There’s rust on the old truths
-Ironclad clichés erode
New lies don’t smell as nice
as new shoes
I’ve years of poems to type up
40 years of smoking to stop
I’ve no steady income
No home
And because my hands are autochthonic
I can never wash them enough
I feel dumb
I feel like an old mangy bull
crashing through the red rag
of an alcoholic day
Yet it’s all so beautiful
isn’t it?
How perfect the entire system of things
The human body
all in proportion to its form
Nothing useless
Truly as though a god had indeed warranted it so
And the sun for day the moon for night
And the grass the cow the milk
That we all in time die.
You’d think there would be chaos
the futility of it all.
But children are born
oft times spitting images of us
And the inequities
millions doled one
nilch for another
both in the same leaky lifeboat
I’ve no religion
and I’d as soon worship Hermes
And there is no tomorrow
there’s only right here and now
you and whomever you’re with
alive as always
and ever ignorant of that death you’ll never know
And all’s well that is done
A Hellene happiness pervades the peace
and the gift keeps on coming…
a work begun splendidly done
To see people aware & kind
at ease and contain’d of wonder
like the dreams of the blind
The heavens speak through our lips
All’s caught what could not be found
All’s brought what was left behind

(os dois brindes são, Corso em NY em 93 lendo o poema, banguele as usual, com musica de Nicholas Tremulis e abaixo o trailer de Corso: The Last Beat, muito mal falado no IMDB, sem som no Youtube, que função, mas né, tentarei baixar, se existir).
Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Whatever works

Posted in deveras pessoais, rubens ewald tchora on 4 de junho de 2010 by mari messias

Podia começar esse post com um longo blablabla sobre como Woody Allen voltou a falar de NY, como acho que ele ta criando a paródia romântica ou, quiça, falar sobre a confusão disso tudo com o o eu-narrador-eu-autor, onanismo centenário. Ou ainda, poderia ficar falando dos problemas que vi, do que não gostei, tem várias coisas. Mas, ai, nem ligo. Sinceramente. Mesmo. Me larga. Beijs.

E se você ainda não viu o filme talvez deva parar de ler, possa ser que eu lance algum spoiler e, oh, avisei.

Negócio é: tenho um amigo ariano que, como tal, além de fã de Woody Allen, também se acha um indivíduo super livre. Vamos chama-lo de Tãder. Tempos atrás estavamos trocando poéticas de vida e conselhos (possivelmente muito errados, como é costume aos conselhos) e ele ficou emputecido (sem rancor, que ele é um doce de pessoa) com meus cronogramas e meu super-poder de auto-controle mórbido. Claro, mesmo sendo jovial como todo ariano, ele devia estar ligado que comprimindo e controlando tanto, eu ia acabar implodindo. Então, no seu bom estado de espírito (esqueci de dizer que ele é uma pessoa feliz e muito boa, isso é sempre relevante pra mim), Tdr ficou tentando me obrigar a repetir feito mantra: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”, ao que eu respondia: “Que isso, bro, quem me navega sou eu, merrrmo”. Eventualmente notei que nem sempre.

E digo isso, que pode te soar idiota, pq tu é muito inteligente e maduro, pra falar que acredito que Allen fez outro filme-bula para tentar nos explicar por qual motivo nem sempre somos quem podemos ser.

Talvez o lance seja que ele está velho e tenha tido a epifania do Bauman, que ta inteira aqui, mas cito um pedaço:

quanto mais velho você é, mais sabe que os pensamentos, embora possam parecer grandiosos, jamais serão grandes o suficiente para abarcar a generosa prodigalidade da experiência humana, muito menos para explicá-la.

Não sei.

O que vi foi um filme de enaltecimento do irracional, no prisma que talvez seja de sua competência. E isso sempre foi um poblema.

Ontem sentei pra pensar sobre o filme, na minha pequena catarse não furiosa, não destrutiva, não hormonal, e um poster ficava me dizendo que “O mistério da grande alegria é selvagem”. Normalmente eu ficaria puta da cara com essa frase de efeito. Defina mistério, defina GRANDE ALEGRIA, defina selvagem. E já pensaria em meia dúzia de conceitos de selvagem e de mistério e tentaria entender o grandealegria. Não que eu não tenha entendido a frase, no sentido subjetivo, captou?

Mas como fiquei com aquele filme martelando a meloa, cheguei em casa, bebi resto de vinho olhando a vista e pensando como gostaria de cobrir ela de pronomes possessivos. E tantas coisas e pessoas mais, pronomes possessivos. Se acreditasse neles.

E D.H. Lawrence falou que sexo é saudável, mas quando vai pro cérebro vira doença. Cada coisa com sua parte correta do corpo, tipo isso. Então o mesmo deve servir pro cérebro, é saudável, lindo, me alegra, mas acho que quando vai virando tu inteiro, vira doença, danação, choro e ranger de dentes, etc.

Traduzido no Braziu como “Tudo pode dar certo”, talvez fosse mais adequado como “Quem me navega é o mar, as vezes”.

Férias

Posted in deveras pessoais on 28 de maio de 2010 by mari messias

S.f.pl: Certo número de dias consecutivos destinados ao descanso de funcionários, empregados, estudantes, etc., após um período anual ou semestral de trabalho ou atividades.
IE

[após um litro de vinho]

mari: to bêbada. chorei por mario de sa sendo maltratado por pessoa.
marx: HAHAHAHAHAHAHAHAHA
mari: literalmente ;/