Archive for the textos Category

O ânus do autor

Posted in mofo, textos on 23 de abril de 2008 by mari messias

(também é antigo, dei uma mudada geral, entretanto. nutro apreço pelo tipo de humor desgraçado que inaugurou no meu coração, ou que veio dele, afinal. enfim. se não estou enganada chegou a sair no falecido fraude.org. aproveito a oportunidade para fazer meu trocadilho favorito: CUBA LANÇA. fim. hshshshs.)

Snap1

Joaquim amava a palavra, especialmente os adjetivos. A cada dia escolhia um e passava horas repetindo-o em voz alta, para que grudasse em si.

Confiante, como sempre, dizia de si para si e mais ninguém:

– Esta há de ser minha mais ESPLÊNDIDA obra.

E ía trocando, tentando definir-lhe a grandiosidade. Depois de acabada, sabia, seria capaz de, finalmente, lançar-se fora do corpo do senso comum e daria asas à todos seus sonhos mais fulgurosos, mais profanos, mais generosos, mais gloriosos, etc.

O amontoado de tentativas cessava sua elocubrações. Seria GRANDE, IMENSA. Mas como? E voltava-se para o papel, tentando decidir-se por um estilo que coubesse em tamanha grandiosidade.

I- O ÂNUS DOCE

Enquanto a jovem Carlota enxugava as bochechas rosadas com seu pequeno lencinho bordado eu afagava-lhe os cabelos doirados. Seu corpo, iluminado pelo sol matutino, deixava-se libertar em pequenos bocados para alegria de meus olhos, que ora pastavam suas pernas, ora seu colo.

Havia algo de doce neste seu luzir requentado (e eu ainda não fazia idéia do que poderia ser), que me comprometia os pensamentos. Eramos crianças inocentes arrebatas por idéias putantes que sequer conhecíamos.

– Está muito calor, Cristian, vamos tomar um banho de rio.
– Ora, não sejas tola, Carlotinha.
– Vem, vamos.

Ela me segurou pela mão e eu me deixei levar, cabelo desobrigado pelo vento de feição que nos refrescava a cara.

Chegamos na beira do rio e ela foi logo se livrando das fartas vestimentas, enquanto eu, atônito, tentava decidir o que poderia haver de mais doce naquele corpo.

Foi quando se livrou da calçola que notei, extasiado, a protuberância desconhecida.

Vi seu corpo submergindo e emergindo novamento na água, como fosse superior à natureza.

– Não vais entrar? A àgua está ótima!

Neguei com a cabeça. Ela deitou-se na grama, nádegas expostas ao sol, como um pequeno anjo de faces frescas que era. Sentei-me ao seu lado e fixei meu olhar quase religioso naquela visão divina. Ao final das metades rosadas, que eram como outras bochechas ainda mais macias, notei um pequeno fruto, o mais encantador espetáculo que meus olhos já presenciaram. Não é possível que coisa tão singela e meiga possuísse tão árdua tarefa. Tomou-se minh´alma de serenidade. Aflorava-lhe toda a doçura do botãozinho do cu. Se o umbigo nos ligava à mãe no ventre, seu pequeno ânus era um canal com Deus. Ele separa de si toda injustiça e toda tristeza deste mundo. Tão confiante parecia em sua tarefa de amar que mal pude conter-me em beijar-lhe.

De absorto que estava, sequer ouvia os ruídos do resto do mundo.

Compenetrado o olhava cada vez mais de perto. Parecia-me que ele queria falar comigo. Notei-lhe a pequena boca abrindo e liberando um minúsculo traque em minha cara. As bochechas de Carlota rosaram-se, na face, ainda mais que em sua bunda e ela, constrangida, desculpou-se.

*N.A.: Confrontou-se, desanimado e vítima de um leve desarranjo, com esta idéia de ânus imaculado. Temendo o cu divino, largou-a, de vez, de lado.

I- O ÂNUS AMARGO

Todos os ânus são medíocres. Principalmente estes da minha geração, que as damas andam a perfumar e os rapazes a repudiar os reais feitos.

Se tenho um sentimento muito grande, por ele me cago. E nada de mal há num cu fazer o que lhe é próprio, quem dera seus donos o fizessem também. É necessário que haja simetria nos atos, que se cague pelo rabo e se fale pela cara, não o contrário.

Se a todos os cus de meu tempo repudio, são os acadêmicos que odeio ainda mais. Decrépitos e bolorosos, em toda sua pompa e talco não há espaço para um peido que saia folgado. Retém sua merda até se matarem de dor, mas não as deixam livres. Como se procurassem uma fórmula. Um cagalhão arredondilhado, ou curto e consistente, como um haikai.

São estas flores de mediocridade que me alegram o cu quando sento e, pensativo, me ponho a cagar. É preciso acabar com esta idéia que temos de nossos próprios ânus, pois se não estão no mundo para nos presentear, estariam para que?

Minha rosca esta te dando a outra face quando ousa mostrar-se. Ela quer poder dizer ao cu de toda gente que chega de cabeças pequenas e espíritos manejados. Que chega de suicidar o cu com laxativos, que os queremos arregaçados, hemorróidicos, encaralhados, hemorrágicos.

Então, pasma-te, burro, diante de meu cURRO, pois é por borrar-te neste teu negro engodo, que não o deténs.
PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRÓÓÓÓÓ.

*N.A.: Viu neste sarro de idéia um idiotismo ainda mais refinado que o seu. Quem se interessaria por um cu ateu?

I- O ÂNUS SECRETO

Leonor entrou na minha vida por um lapso tão grande, que não consigo ter certeza se cheguei a entrar na dela. Já nos conhecíamos, mas eramos escrotos demais, mesmo um para o outro. Ela era a atriz-garçonete que trabalhava no bar onde eu costumava ser o bêbado-poeta. Nunca conversamos. Aliás, poucas vezes nos olhamos, então já vou adiantando para vocês não sentarem seus cus suados na esperança de que eu vá dizer o quanto ela era bonita. Eu não costumo apelar tanto para conseguir um texto. Nem se lembrasse o faria.

Como disse no começo, foi tudo um lapso. Enquanto eu me afundava em vodka com guaraná na busca de uma poesia que não fosse afeminada, ela percebeu em mim uma possibilidade. Estou falando destas coisas mais difundidas na verdadeira literatura e que, entretanto, não tem relação nenhuma com bundas de mulher.

O leitor mais esperto já deve saber que nenhuma dama, por mais falsa e feminina que seja, se oferece para carregar um homem bêbado até sua casa simplesmente para agradar a Deus. Então ela carregou nossas carcaças até meu apartamento e, assim que me largou na cama, começou a vasculhar a casa para ver se achava algum trocado.

Eu ri alto, desafiador. Isto deve ter deixado a moça desconcertada, pq ela parou um pouco, como se tivesse ouvido um berro de morto. Depois, caminhou até a cama e parou sem enorme rosto redondo em cima da minha cabeça. Ficou em silêncio. Eu abri os olhos e tentei resmungar alguma coisa, mas não consegui e acabei emborcando para o outro lado, pegando no sono.

Em tempo de bêbado, duas horas depois acordei com uma vontade incrível e mijar e vi que ela estava dormindo do meu lado. Quando eu me levantei ela abriu os olhos e eles ficaram me seguindo. Deve ter notado que eu ia para o banheiro e foi atrás. Abri o zíper e tirei o pau pra fora.

Ela abriu a boca e esperou. Não consegui segurar o mijo, mas enquanto ela engolia, eu berrava:

– Na boca não, porra!

Quando minha bexiga se esvaziou, voltei para a cama, deixando-a ali com a boca cheia de vodka e guaraná refinados. Mas ela não estava satisfeita e me seguiu de volta. Tirou a roupa e se colocou de quatro, esperando que eu fizesse algo.

Agarrado em sua bunda, com muito esforço, consegui me ajoelhar. Então, como Moisés, tentei afastar aquele mar morto. Quanto mais esforço eu fazia, ainda maior parecia aquela carga. Afogado entre as bochechas, não conseguia encontrar seu cu de jeito nenhum. Na duvida pensava se ele realmente existia ou era, simplesmente, muito discreto.

Indignado, cheguei a pensar: que tipo de recinto contrata uma garçonete sem cu?

Continuei minha tarefa de remover até me afogar em suas nádegas e, quando eu acreditava ter chegado no final, aproximava meu rosto para ver se encontrava seu cu. Mas nada. Não havia nada ali.

Fiquei imerso neste trabalho mecânico por um bom tempo, curioso até os ossos com este cofre secreto. Isso aparentemente a agradou, já que ela começou a gritar alto, ondulando seu amontoado de carnes.

Desiludido e quase afogado por esta bunda descomunal, caí para o lado e dormi. Quando acordei, no dia seguinte, ela já tinha ido embora.

*N.A.: Relendo o texto, teve uma incrível impressão de riqueza. Para confirmar, impôs seu odor ao ar, certo de ter aprendido uma liçãodevida.

I- O ÂNUS DO AUTOR

Medito a bunda na cadeira. Assim, bem impessoal, como um cu sem corpo. Para não haver quem desconfie que neste cuidado repouse uma imensa hemorróida (ainda que se saiba esta verdade universal, quem tem um cu sem dono sabe que não perde por se assanhar).

Se sequer em uma memória distante posso buscar, não azede seus olhos me vendo amargar. Sendo, ou não, verdadeiramente doce, para um cu possante não há nada que se possa negar.

Mas de que falo? Este meu pouco viu. Se houver uma réstia que compre dignidade, me mando em pesquisa e não haverá senão meu que se possa mudar. Quantos cus ainda hei de desconhecer, antes que me seja dado o poder de descagar?

Aviso: quem carrega esta carga em forma de fardo, seja o próximo a puxar e saiba que merda é a réstia inútil da memória passada: descarga.

Do meu próprio posso falar, ainda que com pouco conhecimento, sei que existe e onde está. E sei, por assim pensar, que de buracos na barriga só se caga poesia.

Se merda é outro, meu intestino guarda, frouxo, aquele que vive de se apertar. Miúdo e afinado, meu cu esgoela o peido da merda anunciada.

Sinto, se nada há aqui que se possa televisionar. Nem eu mesmo sei o que mais posso falar.

Em tempo farei meu cu tão macho que se torne quite com sua vontade de imoralizar. Meu cu macho em peido oco de amor por outro brioco.