A crença na fábula do leitor especial

Nunca como nos últimos, possivelmente, dois meses, me deparei com tanto preciosismo acerca do ato de ler.

Talvez seja só impressão e as coisas não tenham mudado de Homero pra cá, mas isso me causou certo horror. Especialmente por não vir de pessoas das quais eu esperariam isso (ie, das múmias de Alexandria que praticam a libação em Balzac).

Mais ou menos como aquela lista de “motivos para namorar um menina que goste de livros“, quem defende a superioridade do leitor de livro em relação ao resto do mundo acredita em uma espécie de hellenismo mágico, onde foi tocado e escolhido para participar de algo especial (que, como tal, não é para todos).

Não sei se a sensação tem relação com o fato de eu nunca ter feito parte de nenhum tipo de casta superior (nunca tive esse lance de pertencimento com uma elite qualquer, que te projeta para fora do senso comum ao mesmo tempo que te protege de ver que, bom, nada disso é verdade), mas isso me soa como um tipo de balela bastante cansativa.

Primeiro, a não superficialidade sempre foi uma escolha restrita e nunca esteve relacionada com o tipo de comportamento de consumo com o qual tu te identifica (de livros, de discos, de jogos, de comida, de esportes), mas com a abordagem que tu da para tudo isso e mais um pouco que constitui tua vida. Inclusive com conseguir lidar com a tua insignificância/significância e como ela não está ligada com essas bandeiras identificatórias superfluas, afinal.

Segundo, nunca, em tempo algum, vivemos tanto no texto infinito do Barthes: “quer esse texto seja Proust, ou o jornal diário, ou a tela de televisão: o livro faz o sentido, o sentido faz a vida”.  E trivializar a nossa relação com a leitura não me parece, senão, saudável para os hábitos de consumo de conteúdo. O tipo de conteúdo, o formato de conteúdo, sempre relacionados com preferências e temáticas individuais.

Admito que vejo a criação do texto como parte essencial de quem somos hoje e, paradoxalmente, acho ela totalmente conflitante com a maneira como, cada vez mais, vivemos: rapidez em forma e durabilidade. Por outro lado, isso não é privilégio do texto. As imagens, os meios e os comportamentos sofrem o mesmo.

Se o Junot Diaz, por exemplo, demorou 11 anos para criar o docinho Oscar Wao, que eu consumi em 3 semanas, a Bethesda demorou 5 anos pra fazer o Skyrim que podemos consumir em poucos meses e tu demora 5 anos pra conseguir um diploma que vai ser inviabilizado na primeira demonstração prática do assunto aprendido, isso não faz de ti um mártir nem um escolhido para lutar contra a corrente da vida moderna. Talvez faça, sei lá, mais alguém que segue o fluxo contemporâneo que há. Mas, pra mim, isso não tem relevância alguma.

Repito: sou incapaz de identificar self (especialmente self mágico) somente baseada nos hábitos de consumo, sejam eles Franzen, twitter ou roupas.

Pra mim, a compreensão dos prismas narrativos religiosos que vivemos também diz respeito a lidar com a inexistência de messianismo. Nem político, nem social. Aka, a diferença, que é essencial e única constante de existir, não precisa ser hierarquizada para ter valor (o único valor relevante sendo, nesse caso, o individual).

E digo tudo isso pq, acima de tudo, vejo a leitura como algo íntimo. Íntimo no sentido de ser privado e não dizer sobre ti mais que o gosto por, digamos, morangos. E íntimo por demandar intimidade no relacionamento com o que tu vai consumir.

Milhões de anos atrás eu postei aqui falando sobre como um curso de dramaturgia salvou temporariamente minha vida acadêmica fracassada como estudante de letras. Acreditava (e ainda acredito) que, por ser de uma família de teatro, nunca consegui compreender (menos ainda achar aceitável/curtir muito uhu) o distanciamento religioso com o qual algumas pessoas da letras (aí inclusos amantes de livros, teóricos, etc) lidam com seu objeto de afeto. Cresci e ainda o faço vendo gente que refocila no lodo com seu autor favorito (do momento ou da vida).

E entre eles estão os leitores mais aprofundados e frequentes que conheço (sejam acadêmicos, teóricos, amantes de livros, gente do tchatro, etc).

Kalói kai agathói só fica bem até 500 A.C.

Então me desculpem, mas endossar ideais de castas não ta pra mim. Acho apenas triste e enfadonho. Curto meus livros como curto meus outros objetos de culto e amor: mundanos.

4 Respostas to “A crença na fábula do leitor especial”

  1. Demoro para ler o livro que compro, pois sinto que lê-lo logo irá me tirar um pouco do sentido de vida que ele pode me trazer. Isto se encaixaria no distanciamento religioso que tu mencionou?
    Aliás, muito bom teu texto. Congrats.

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