Desobediência Civil Capitalista

Uns posts/anos atrás eu citei, por cima, o Albert Spaggiari. Mais como piada de mim para mim que como referência real. Então hoje, lendo sobre o Enric Duran, resolvi oferecer um puxadinho na bloga para tão nobres figuras.

O que eles tem em comum? Ficaram conhecidos por crimes não violentos contra instituições financeiras, ie, bancos. O que, bem ou mal, nos bota pensativos bagarai. Em ambos os casos foi intencional nos colocar pensativos, respeitando os limites de seus tempos e autores.

Spaggiari foi o criador do motto clássico: Sans armes, ni haine, ni violence (sem armas, nem ódio, nem violência) e Enric Duran é conhecido como Robin Bancs, Robin Hood moderno, Robin Banks, Robin Hood dos Bancos, por aí vai.

Spaggiari foi um french maroto que, em 1976, fez aquele que ficou conhecido como o maior roubo do século (passado). Mas ele tinha uma alma de poeta, saca. Rezalenda que o primeiro roubo dele, na tenra juventude, rolou pra dar uma jóia pro seu, então broto. Aliás, os brotos foram um problema na vida do cara, acompanhe. Depois disso ele foi ser paraquedista sei lá onde pra não ter que ir preso. Na volta pra França não abandonou a revolução armada, e foi logo escolhendo a revolução mais escrota: pra fazer a Argélia permanecer francesa. E por isso ele foi preso. Pra aprender a deixar de ser babaca. Ou quase.

Então, provando que a alma de poeta continuava ali, ele abriu um studio de fotografias. Os jovens (salvo pelos arté) não devem saber, mas naquela época as fotos tinham uma tecnologia que envolvia FILMES e  REVELAÇÃO (não divina, enfim, SE INFORME). Mas tem gente que diz que era só fachada. De toda forma, que fachadinha, né manô: vou simular que não sou criminoso fazendo POESIA. AVÁ.

Daí, do seu cantinho de artista, todo bolorento e muquifento, ele bolou um negócio genial. Sério. Genial mesmo. Não tou exagerando, JUROR. De chorar pedrinha no canto. De escrever poesia sobre. De transformar em origami e abraço apertado. Ele descobriu que os esgotos levavam lá pro banco Société Générale e começou a cavar um túnel logo embaixo do cofre do dito. Reza a lenda que logo antes disso ele tentou apoio da máfia local e nem rolou, daí ele construiu sua própria máfia cheia de especialistas em vááárias coisas: pedras preciosas, bombas, cofres, enfim, tudo que rapeize precisa.

No dia das comemorações da Bastilha que é tipo O VINTÊ do mundo quase real, eles entraram no cofre na maciota, armaram um piquenique com vinho e patês, abriram os cofres, analisaram os contiudos, pegaram o que queriam, ficaram transportando, de sobra colocaram fotos comprometedoras de políticos e/ou Tio Patinhas pelas paredes, escreveram o motto aquele do lado (sans armes, ni haine, ni violence),  deixaram o resto do piquenique SÓ DE DESAFORO e deram o vazare.

Genial, né?

Pobrema foi que Spaggiari, como todo cara massa, curtia mina-loca. Então ele demorou meses cavando esse túnel e a ML achou que ele tava, ÓBVIO, com outra ML. Que é SÓ o que mina-loca pensa, nós dois sabemos disso. E, tipo, passar madrugada de feriado fora de casa FOI A GOTA DAGUA e a mina-loca dele ligou pra PULIÇA no dia que ele invadiu o cofre dizendo que ele tinha sumido. E no dia seguinte, procurando pistas no estilo STABLER CONTRA O CRIME eles uniram os pontos e PAFE.

Lá foi nosso herói preso.

Mas aí no dia do julgamento, manô, sujeito começa a dar um discurso sem lógica na frente da juíza. Levanta, fala nada com nada, faz longas pausas, muita linguagem corporal (licença, tou visualizando aqui), se apóia na janela para chorar, volta, corre em direção a janela e pula. Todos acham que ele tentou se matar. Mas ele caiu em um carro, subiu numa moto e fugiu.

Teve prisão perpétua decretada, mas diz o cara que escreveu o livro sobre ele e que, reza a lenda, o entrevistou em Paris, que foi parado por um puliça no dia que todo o país sabia que ele estava indo se encontrar com o Albertão e o poliça sorriu e desejou sorte. Saca.

Hoes recognize, niggaz do too.

Quer mais? Outra célebre frase do Spaggi era “Tout me fait rire”. Descobriu o segredo da vida, saca? Sujeito morreu na Itália, aos 56 anos, fugiu da frança do lado da mina-loca que denunciou ele, cheio da grana, fez umas plásticas, enfim, la vie, esta folie.

Bom, saiu filme. Tava passando um dia 4 da manhã no TC Cult, dormi, obvio. Recomendo. Mesmo que seja uma merda.

Bow down to the King of kings.

Então chegamos, finalmente, no Enric Duran. O cara é catalão. Galerinha da Catalunha é pobrema, todo mundo sabe.

Começa com o papo de eles lutarem com machete na mãozinha bonitinha deles por um idioma. Porra, me larga, eu vejo assim.

Mas aí esse cara é de uma cidade perto de Barcelona (chama Vilanova i la Geltrú) e, rezalenda, que ficou estudando anos maneiras de fazer o que fez, feito o Spaggiari. Então, de 2006 até 2008, ele pegou 68 empréstimos pessoais em bancos, totalizando 492,000 euros. Em 2008 ele saiu do armário como um ativista anti-capitalista e disse: Oh, rapeiz, peguei na maldade e nem vou pagare. Pra vocês aprendere.

Na real foi mais massa, ele escreveu um artigo chamado, marromeno: “Eu roubei 492,000 euros de quem mais nos rouba para denunciar essa galerinha e construir algumas alternativas viáveis pra sociedades” e tu pode ler aqui em inglês. No negócio ele explica que queria, com isso, chamar a atenção pro sistema financeiro bizarro que vivemos, onde é impossível normalmente pra qualquer pessoa conseguir essa soma de dinheiro e, mesmo assim, os empréstimos estão aí, super facilitados e tributados. Ele oferece um monte de possibilidades de take action, pra quem quer se engajar e viabilizar uma construção alternativa ao modus operandi financeiro atual. Mas ele diz que, se tu não quer fazer isso, faça ao menos o seguinte:

– não pegue nenhum empréstimo e tire todo o dinheiro de bancos.

E ele distribuiu isso em uma espécie de jornalzinho ou revista, pelo que li, que chamava Crisi. Enfim, na publicação ele também explica como gastou o dinheiro que afanou sistematicamente. Diferente do Spaggiari (outros tempos, outras metas, outros heróis), o Duran não tomou tudo pra si. Ele usou uma parte pra imprimir a Crisi, que é uma espécie de manifesto da causa com o dinheiro do inimigo. E, saca só, eu fiquei sabendo que esse cara existia num blog de um brasileiro que pegou o jornalzinho de um amigo não-sei-que que ele encontrou em Portugal. Emocionante, né?

Além do jornal, o Duran também doou uma grana prumas instituições que buscavam alternativas ao sistema capitalista e que ele curtia (são várias, SE INFORME), mas nem disse quais pra evitar problemas e devoluções forçadas.

O Duran foi preso, mas pelo que entendi foi por ter usado documentação falsa em alguns dos empréstimos. Vocês podem ler mais online em vááários lugares, inclusive em português (google it, bitch). Mas oficial tem a revista PODEM pra ler online em várias línguas, aqui link em inglês. Também tem o  blog dele.

Ah, o título do post é uma expressão que ele usou lá no manifesto original. E E E E E sabe quem ele me lembra  (e que gosto tanto)?

Como diria POUND:

ATENTE para o som que isso faz.

3 Respostas to “Desobediência Civil Capitalista”

  1. obrigatório Says:

    Véi, a arte tem sempre que quebrar a firma.

  2. Adorei seu texto. Sarcasmo e informação na medida. Bela descoberta!

  3. Po, valeu, Rodrigo. Curto muito teus desenhos, a Ilíada parece estar especialmente foda. Cobiço. Quando sai? Abraços

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