Fim de ano

É, eu sei, o ano acabou (ou começou) tem tempo. Até o tigre chinês já está na área e tudo mais. Mas em breve (brevíssimo) começa março, com fúria implacável, como é seu costume. E, bom, ninguém deveria ler Borges domingo de noite (ainda que a noite seja uma festa longa e solitária, travestis), mas vá, eu uso meu chapéu como eu quero. Domingo, sexta, feriados, pouco me importa. E fiquem com o começo do processo de uma vida melancólica do velhaco. Mas não levem muito a sério, né. Não estar completo é só sinal de que ainda se respira. E me perdoem os asmáticos (eu edito post mesmo, me larga).

Nem o pormenor simbólico
de substituir um três por um dois
nem essa metáfora baldia
que convoca um lapso que morre e outro que surge
nem o término de um processo astronômico
atordoam e minam
o páramo desta noite
e nos obrigam a aguardar
as doze irreparáveis badaladas.
A verdadeira causa
é a suspeita geral e difusa
do enigma do Tempo;
é o assombro diante do milagre
de que apesar de infinitos acasos,
de que apesar de sermos
as gotas do rio de Heráclito,
algo perdure em nós:
imóvel,
algo que não encontrou o que buscava.

Jorge Luis Borges

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Uma resposta to “Fim de ano”

  1. Só a insatisfação perdura.

    Taí “O Sumiço do Lubisco”, um mash-up sensual de mistério, aventura e sumiço: http://aprimeirapedra.wordpress.com/

    Besos

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