Comoção

Então as pessoas tem se manifestado sobre o fechamento da Sala Norberto Lubisco. Acho massa bagarai, tendo em vista que é a primeira vez em anos que vejo as inúmeras decisões questionáveis que são tomadas em relação a cultura de onde eu vivo (Porto Alegre – RS) serem debatidas.

E por isso, vou dar minha opinião sobre algumas coisas mais. Sobre os  que dizem que não entendem por qual motivo as pessoas se comovem, se as salas estavam sempre vazias, e sobre os que dizem que não entendem por qual motivo as pessoas se comovem se a mesma só foi fechada para reformas.

Pois então vamos lá, vamos nos comover.

Primeiro de tudo, as pessoas se comovem porque se acham no direito de manter os ambientes culturais que lhes restam. Não que estejam exigindo mais ambientes culturais, ou mesmo novas posições diante da cultura. Não que estejam exigindo que os espaços culturais existentes sejam melhor mantidos, nada disso. Só o que se demanda é que se mantenha o que já se tem.

Claro, se vamos viver em um estado libertário serei a primeira a achar excelente e apoiar, mas pedirei que comecemos cortando dos meus impostos, já que enquanto eu pagar impostos alibertários, demando obrigações governamentais alibertárias.

E, se os romanos nos ensinaram alguma coisa além de Latim, danos psicológicos permanentes e incesto, foi sobre dominação cultural.

Obviamente eu acho que se confunde muito um posicionamento do Estado diante da cultura com paternalismo. Acho imbecil pensar assim, mas isso deixaremos pra outra hora e, espero que, pra pessoas mais inteligentes e mais bem informadas que nós.

Mas, voltando, o segundo tópico pede duas informações aos crentes. “Ora, mas não entendo o alvoroço, a sala só foi fechada para reformas.” Sim, e você chupa cimento achando que é cheetos. Quando um Estado (cuja política de cultura é dirigida por  Mônica Leal, filha do Coronel Pedro Américo Leal) decide que os cidadãos simplesmente não tem interesse em saber sobre os rumos do patrimônio deles (pera lá, eu estava na inauguração da CCMQ, do lado do então velho e agora falecido Quintana, uma criança ranhenta, mas lembro que foi outro governo que abriu, então é do Estado, sacou, binarismo chama) é, no mínimo, bizarro.

Vocês sabem bem quando esta informação entrou na roda. Quando ela foi ao ar na rádio e, graças a isso, quando ela foi ao ar online e, especialmente, quando a família do Norberto Lubisco (que ficou sabendo pelo rádio, pessoas! Polidez é civilidade, quando perdemos a polidez?) se engajou. Então o Estado surgiu e deu seu lado da história, mas não antes, não rolou precipitação. Tanto que muita gente desconhecida chegou aqui atrás de informações, já que elas não existiam em outros lugares, sacaram?

Então que seja pra reforma, acredito mesmo, JURO. Mas o que se prega, aqui, é prestar contas do bem público a quem se deve: ao público.

E outra, falamos de reformas como se fosse algo simplório. Isso só pra quem vive no mundo da reforma do parquet da sala, que detona a casa e o nariz, mas é rapidinho, vai. Nesse caso, deixa ver, podemos citar o exemplo do Araújo Viana (do município) que está fechado para reformas desde de 2005. E nada ainda. Nossa, adorava freqüentar o Araújo Viana. Mas pra que alvoroçar, é só uma reforma, po.

Claro, Sala Norberto Lubisco não corre este risco se tu acredita que os governos diferem muito. E, neste caso, a única saída possível é ver a arte como apenas mais uma vertente do capitalismo que não está fazendo valer seu custo benefício. Sobre uma situação bem similar, disse um artista russo que agora fiquei em dúvida quem era exatamente, mas a frase nunca esqueço, resumo de uma época: “Foi a desforra dos imbecis”.

E, bom, pra finalizar eu não poderia deixar de falar dos meus ermãozinhos e ermãzinhas irónicos que se deparam com todos os assuntos do mundo com aquele olhar meio de lado, já saindo, indo embora, de quem não se compromete. Como se toda entrega fosse patética. Sobre  isso, DFW, pelos bracinhos do Moxão (de quem sinto saudades mortais) me ensinou que:

All U.S. irony is based on an implicit “I don’t really mean what I say.” So what does irony as a cultural norm mean to say? That it’s impossible to mean what you say? That maybe it’s too bad it’s impossible, but wake up and smell the coffee already? Most likely, I think, today’s irony ends up saying: “How very banal to ask what I mean.” Anyone with the heretical gall to ask an ironist what he actually stands for ends up looking like a hysteric or a prig. And herein lies the oppressiveness of institutionalized irony, the too-successful rebel: the ability to interdict the question without attending to its content is tyranny. It is the new junta, using the very tool that exposed its enemy to insulate itself.

Então, me perdoem a comoção , mas é uma questão de educação (e rima pobre).

Anúncios

4 Respostas to “Comoção”

  1. Mari, peço a sua permissão para reproduzir esta postagem no meu blog!

    Obrigado mais uma vez pelo engajamento, a hora é agora. Vamos mostrar que a cultura deve vir acima de tudo, sim!

    Grande Abraço!

    Ricardo

  2. Eles estão tendo de tomar uma posição, pois a coisa fedeu, a opinião pública começou a apertar. Acontece que situações como essa se alimentam do silêncio e da desinformação. A matéria que saiu na ZH é boa, mas as declarações são falaciosas; acho que na rádio a coisa ficou mais clara, quem é o que, qualé a deles afinal.

    A sala não precisa de reparo, ela não deve ser mudada, deveria seguir tradicional, com mostras em película, em nome da cultura. Mas até que eles entendam que aquilo é a CCMQ e não o Xópim Moinhos da vida, muito laquê há de voar pelos ares.

  3. Sem problemas, Ricardo

    Claro, Noah, a posição, ou reposicionamento, é colocar no dos outros, fazer soar como se toda manifestação fosse histeria. Acho nobre. E assino embaixíssimo da tua idéia pra sala: http://www.navevazia.com/marcelonoah/2010/02/ideia-para-a-sala-norberto-lubisco.html

  4. […] fechamento rendeu diversas manifestações na internet – um e-mail assinado pelo poeta e radialista Marcelo Noah foi amplamente retransmitido na última […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: