Jornada

district_nine

Anos atrás eu trabalhei com pessoas que não entendiam a importância do herói. Essas pessoas achavam que nossa ficção com super-heróis [a única esfera conhecida de heróis pra eles] era uma fuga da realidade, no sentido de que projetaríamos em seres sobrehumanos nossas frustrações, desejos, sonhos. E isso era desprovido de esperança de realização, já que somos apenas humanos.

O que eles não entendiam no meu ponto de vista é que o herói é o próprio homem abismado. Nós somos obcecados por imagens heróis desde sempre e não acho que deixaremos de ser, pq acho que acreditamos que somos todos, potencialmente, heróis.

Como o Shaun, do Shaun of the Dead.

Nesse sentido eu também acredito que a jornada do herói é a jornada do próprio homem abismada. Os percalços pelos quais passamos para nos tornar quem somos, o grande belo e terrível de quem somos.

Ano passado eu falei aqui sobre o que eu considerava que ia dominar o novo heroismo: uma figura mais Batman e menos Superman; mais chaotic neutral que chaotic good. Um sujeito não exatamente ilibado, mas que estava envolvido com sua causa, pessoalmente envolvido e, desse envolvimento inicial surgiriam desdobramentos que o amplificariam. Ele não abriria mão de si em nome de algo maior, ele seria parte do algo maior, cada vez mais, um pedaço do todo. E reconhecer isso em si era o próprio heroismo dele. Talvez chegando ao ponto de as identidades secretas darem espaço ao orgulho da identidade de desviante. O freak pride heróico.

Enfim, maconhismos. Mas o que pode ser mais cotidiano e menos sobrehumano que isso, nénão?

E é nessa onda que eu vou falar brevemente de District 9 e dessa jornada comovente. Então, se ainda não viu, alerto aos possíveis spoilers e peço que leia depois de ver.

O personagem principal do filme, Wikus, parte de uma ingenuidade quase idiotizada para um conhecimento tão profundo de si mesmo que chega a ser desolador. Sabendo que não seria aceito como o que era antes de sua transformação mas, também, notando que não era somente o que veio depois, Wikus abraça sua dualidade, ainda que involuntariamente, se transformando em um personagem absoluto.

É como se ele descobrisse a si pelo todo e, em suas máculas, construisse uma pureza mais verdadeira, uma pureza com conhecimento, escolha, não alheia.

District 9 é, claro, como tudo que envolve heroismos diversos, uma bela noção de altruismo. Mas é, mais que isso, uma aula de compaixão, coisa que só existe pela alteridade. Como naqueles documentários onde o sujeito fica 10 dias numa prisão para dizer como são as coisas lá, Wikus vira o outro para ver o outro, sem deixar de ser ele mesmo.

O filme, obviamente, uma referência ao apartheid, não é chato, babaca, cabeçudo ou raivoso. É entretenimento trimassa, do tipo que fica na tua cabeça por mil anos e te leva a pensamentos tão distantes de aliens e Johanesburgo quanto vegetarianismo e cristianismo.

Por isso, pra mim, District 9 sucede onde Inglourious Basterds fracassa.

Anúncios

2 Respostas to “Jornada”

  1. Depois de ler tua opinião, quase fiquei convencido de que Distrito 9 é um filme mais do que “legalzinho”. Quase. Mas eu sou chato. :P

  2. ah, mas quem não é
    ser chato é parte do pacote
    menos dos filmes, que deveriam só ser legais e compensar o resto
    hahahaha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: