Saindo das trevas

AGOSTO DE 2008 _Foi numa tarde de domingo, véspera do meu planejado retorno à ala 4c, que houve um ligeiro deslocamento dentro de mim. Tinha parado com o Remeron e começara a tomar um remédio novo, chamado Abilify. Sentia-me um pouco mais calma, e meu quarto já não me parecia um lugar tão estranho. Talvez tenha sido o medo da ect, ou o fim do efeito da medicação errada, ou talvez a depressão tenha finalmente completado o seu ciclo e começasse a se dissipar. Eu não tinha – e ainda não tenho – uma idéia clara do que aconteceu. Por um curto intervalo, não havia ninguém comigo em casa, e decidi levantar-me e sair. Entrei no supermercado e fiquei examinando a seção dos cereais para o café da manhã. Fiquei tão atarantada diante da variedade de marcas como alguém recém-saído de um gulag. Comprei toalhas de papel e morangos, depois andei até minha casa e voltei para a cama. Não foi propriamente uma viagem à península de Yucatán, mas foi um começo. Não me internei no hospital no dia seguinte, preferindo dedicar o resto do verão à reocupação paulatina da minha vida, reaprendendo cada passo. Convivia com pessoas em quem confiava, e com as quais não preciso fingir.

Perto do final de agosto, fui passar uns dias na casa de praia de uma amiga. Éramos só ela, eu e seus três cachorros irritantes. Eu tinha levado um romance para ler – O Encontro, de Anne Enright. Foi o primeiro livro que me absorveu, e o primeiro que consegui ler desde antes da minha internação. Cheguei à última página no terceiro dia. Por volta das quatro e meia daquela tarde que já trazia o prenúncio do fim do verão, olhei para o céu incrivelmente azul. Um dos cachorros estava sentado ao meu lado, o corpo quente encostado na minha perna, enquanto eu me secava do mergulho que acabara de dar. Haveria novos livros para ler, novos filmes para assistir e novos restaurantes a experimentar. Consegui me imaginar escrevendo de novo, o que não me pareceu uma idéia estapafúrdia. Havia coisas que eu queria dizer.

Tudo ainda me parecia frágil, mas, pelo menos por enquanto, minha depressão abrira espaço. Esqueci a sensação de viver sem ela, e por algum tempo eu me debati, sem saber como poderia reconhecer a mim mesma. Sabia que ela poderia voltar a qualquer momento.

Mas vislumbres de luz também poderiam se prolongar se eu persistisse mais um pouco, aferrada à perspectiva de longo prazo.

Era um risco que me pareceu valer a pena correr.

(o texto inteiro pode ser lido aqui)

X

Cherry ficou me falando que eu precisava ler esse lindíssimo relato da Daphne Merkin. Meses atrás todos nos debulhamos com a morte do filho da Plath, antes ainda com a morte do DFW. Acho que vale a pena ler sobre a angústia de uma depressão que ninguém consegue remediar, de uma doença matreira e sobre uma sobrevivente de Gorazde. Ao final ela fala de uma medicação ultra-moderna, ao que parece, mas sabemos que depressão tem ciclos, então como definir, a essas alturas? Isso importa pra gente (pra ela importa, por certo)?

Fiquei na dúvida sobre que trecho citar, optei pelo mais esperançoso, como sempre. Desculpe cortar seu barato, mas agora você ja sabe como termina, azaroseu.

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