Post Festum

A dor pela deterioração dos relacionamentos amorosos não é apenas, como se supõe, o medo da retirada do amor, nem o tipo de melancolia narcísica descrito por Freud com tanta perspicácia. Nela também está envolvido o medo de que o sentimento do próprio sujeito seja transitório. Tão pouca é a margem que para os impulsos espontâneos, que qualquer um a quem eles ainda sejam concedidos vivencia-os como uma alegria e uma dádiva, mesmo quando eles causam dor, e até chega a experimentaros derradeiros vestígios aflitivos da intuição como um bem a ser ferozmente defendido, para que o próprio sujeito não se transforme numa coisa. O medo de amar o outro é, sem dúvida, maior que o de perder o amor desse outro. A idéia – que nos oferecem como um consolo – de que, dentro de alguns anos, não entenderemos nossa paixão e seremos capazes de deparar com a mulher amada, acompanhada, sem experimentar nada além de uma curiosidade surpresa e passageira, consegue ser sumamente exasperante para aquele a quem é apresentada. É o cúmulo da blasfêmia a idéia de que a paixão, que rompe o contexto da utilidade racional e parece ajudar o eu a escapar de sua prisão monádica, seja uma coisa relativa, capaz de ser reajustada à vida individual através da ignominiosa razão. No entanto, inescapavelmente, a própria paixão, ao vivenciar o limite inalienável entre duas pessoas, é forçada a refletir exatamente sobre esse impulso, e com isso, no ato de ser dominada por ele, a reconhecer a futilidade de sua dominação. Na verdade, sempre se soube da inutilidade; a felicidade estava na idéia absurda de ser arrebatado, e cada uma das vezes em que isso deu errado foi a última, foi a morte. A transitoriedade daquilo em que a vida mais se concentra irrompe justamente nessa concentração extrema. E ainda por cima, o amante infeliz tem que admitir que, exatamente onde julgava estar esquecendo de si, amava apenas a si mesmo. Nenhuma dose de franqueza permite sair do círculo culpado do natural; isso só se consegue com a reflexão sobre quão fechado ele é.

Theodor Adorno

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7 Respostas to “Post Festum”

  1. Não fez NENHUM sentido pra mim. Sério. Me senti até lendo HEGEL.

  2. po, nadaver. é totalmente claro no que quer dizer.
    me agradou deveras a idéia de que temos tão pouco espaço pra impulsos espontâneos que tomamos como dádivas mesmo os palha, nhé.

  3. Paulo Fernandes Says:

    GENIAL

  4. Paulo Fernandes Says:

    Agora me ajuda a achar isso em ALEMÃO
    Sempre gostei do careca, e sempre assumi isso na CADIMIA

  5. gostei do careca, ok, estou me civilizando
    não serei um GURI DA 5a SÉRIE

  6. MOJO, achei uma tradução do texto pra ti: http://www.youtube.com/watch?v=OExeg81QvcA
    :D
    (brigada, praxe)

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