Mestre

luizpa

Vera Karam tem uma frase, que nunca acho e sempre tenho vontade de citar literalmente, sobre a sensação de familiaridade que ela teve com as pessoas do teatro justamente por elas abraçarem sua esquizofrenia. Essa noção de multiplicidade que eles aceitam e vivem. Por atuarem, escreverem, dirigirem, enfim, vivenciarem suas inumeras facetas, as facetas seu conhecimento.

Miles de posts atrás eu mais ou menos falei sobre isso, sobre a diferença que existe entre o mundo do teatro e das letras, que está bastante relacionada com a forma como as pessoas interagem com o seu objecto de estudo.

Pois bem, alguns anos atrás eu estava exactamente no ponto onde descobri isso. Descobri minha familiaridade, ainda que eu seja uma tímida mórbida, com essa esquizofrenia e minha vontade de demandar mais no tacto com o meu objeto de estudo afeto. Mas antes de saber isso, eu sabia que estava cansada da Letras, sem saber exactamente por qual motivo e pra qual caminho ir.

E minha saída, resultado de uma montagem do João Ricardo prum texto meu dasantigas que me apresentou ao Luiz Paulo e do coração doirado de minha mãe que me sugeriu um curso, sabendo que adooouro cursos, foi que eu fizesse a oficina de dramaturgia do professor Luiz Paulo.

De fato, como aluna de Letras sempre achei que não sabia o suficiente sobre dramaturgia, ja que acho que abordamos isso sempre muito vagamente.

E nas oficinas do professor Luiz Paulo, que eram de escrita criativa, eu descobri mais sobre a estrutura, a teoria, os clássico. E sobre mim. Até cheguei a essa conclusão ai de cima. Que eu, sendo como sou, sendo quem sou, não tolero tratar meus livros, meu conhecimento, com distância e assepsia.

Professor Luiz Paulo me lembrou o que me deixava enamorada nos intelectuais (meus familiares inclusos) do teatro e por quais motivos eu queria ser mais como eles, seu conhecimento desmedido e seu amor vivo. Que era bem diferente do perfil da maioria das pessoas de letras que eu estava convivendo exaustivamente e que estava me deixando tão pouco empolgada com a vida. Claro, sempre existem exceções. Mas, enfim, foi uma bela descoberta. Uma coisa que me fez rever meus modos e me fez voltar a sentir paixão, coisa que eu considero fundamental para existir.

Então, hoje fui na comemoração dos 50 anos de teatro do professor Luiz Paulo. Meu mestre.  Não é qualquer coisa fazer 50 anos de ofício, convenhamos. Deste ofício, então. Foi um momento bastante bonito.

Sentada lá, comendo, fumando, rindo, vendo pessoas do meu imaginário centenário, enfim, me senti como se eu estivesse num tipo de festa cigana.

Eu não faço bem parte desse grupo. Não faço teatro, afinal. Sou tímida, afinal. Mas eu me sinto confortável entre aquelas pessoas, mesmo as que eu não conheço ou que não simpatizam muito comigo. É o mais próximo que eu chego do senso de pertencer ao mundo e de entender a idéia do hexagrama 46, aquela coisa de brotar desviando dos obstáculos.

Então alegriaalegria pelos 50 anos de teatro do Professor Luiz Paulo, meu mestre, que mudou minha vida de tantas formas sábias e epifânicas e deve ter mudado tantas outras de tantos outros alunos. (mas ele me disse que eu sou a aluna favorita dele, ok? morram de inveja, mortais. hshshshs)

Foi lindo.

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3 Respostas to “Mestre”

  1. arthur telló Says:

    Eu tento não esquecer isso todo dia, a cada livro.

  2. que lindo mari
    lindo saber que tu compartilha a amizade e admiracao pelo Luiz Paulo

  3. Arthuur, por isso tu é meu correspondente em Gorazde, sempre
    Johny, e por tu :*

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