The other shoe

towersshoefull

Vinganças. UF.

Dizem que meu signo, escorpião, é dado a vinganças. Eu não posso falar pelos outros, mas posso dizer por mim que acho vingança uma coisa totalmente despropositada. Como se a vida fosse fácil e eu tivesse que inventar complicações que nunca terminam.

Pq vingança nunca acaba. Fica um raciocínio bolinha onde não cabe lucro, só esforço em vão e dano. Não faz o menor sentido. É isso que penso.

Pois bem, digo tudo isso por alguns motivos.

Dias atrás vieram a tona em jornais do cânone ocidental (o homem branco, esse dominador aguerrido) notícias que já circulavam aos kilos pela internet em meios de divulgação independentes e nem tanto. Mas nesses jornais fizeram tombar o sujeito mediano, nós.

As notícias falavam do horror despropositado na ofensiva israelense->palestina.

A real, eu acho, é que nós não queremos saber.

Não queremos saber de ciganos sendo queimados vivos na Itália ainda hoje. Não queremos saber de velhinhos sendo metralhados na Palestina. Isso dificulta ter uma visão encaixotada da realidade e nos confronta com aquela idéia clássica de que o cerumano não é, de nenhum ponto de vista, objetivo.

Não somos. Isso é foda. Mas ninguém disse que seria fácil.

E eu tenho lido e relido e relido o In The Shadow Of No Towers pra ver se consigo chegar em um raciocínio que não aborde mais graphic ou mais novel, mas seja coerente e justo com ambos. E a primeira história é essa metáfora que coloco aí pra vocês lerem sobre o medo do outro sapato que nunca cai.

Um bêbado deixa cair um sapato. Acorda todos. Daí toma cuidado com o próximo sapato, não faz barulho. Mas todos já estão acordados, temerosos, esperando que venha o próximo. Drop the other shoe. Estamos aqui nos aguardes, ansiosos.

O Spiegelman fala do terror que rolou na vizinhança dele depois do 11/09. Todos esperando o outro sapato, o governo usando esse temor pra domar, promover, atemorizar.

A doce e suave vingança que foi sendo tramada dentro da “casa” dele, que num processo bem sofridinho fez com que ele voltasse a desenhar também pra chamar a atenção pro grande terror que estava instaurado no medo do outro sapato. Não no sapato em si.

Como disse Zizek, meu paizinho, com uma esquerda assim, quem precisa de direita.

Ah, isso serve pro Brasil, claro, serve pra esquerda mundial que ignorou a mesma reportagem que saiu nos jornais de agora e foi mostrada uns 2 meses atrás pela Al Jazeera (esses brutos radicais), serve pra todos nós temos certeza de que a culpa vem de fora. Se calarmos a culpa, no melhor estilo antigo testamento, tudo se resolve.

Pff. Precisamos mesmo é de peças pregadas por Exu pra cair na real. Alguém que carregue óleo em peneira e nos faça ver os bando de babacas simplórios que somos, sempre esperando o outro sapato.

Ai, cansei, vou pra casa.

Pra saber detalhes e pormenores vão aqui, hereges.

3 Respostas to “The other shoe”

  1. logo depois das torres irem ao chão, os publicistas de Washington inventaram uma escala visual para demonstrar o nível de ameaça de um novo ataque – nos moldes aqueles do doomsday clock da guerra fria. os liberais de lá foram os primeiros a dizer que o governo iria “tocar a escala como se fosse um piano” – e foram eles também os primeiros a dançar a música. patetismo total. e agora se discute quais e tais instrumentos de regulação falharam e lançaram o sistema macro-economico nessa convulsão psicótica em que se encontra: e ninguém tem a paciência lógica necessária para estabelecer um nexo forte entre oito anos de “guerra ao terror” e oito anos de roubalheira sorridente. o mesmo vale, acho eu, para a situação palestina, que é enquadrada ou pelo prisma religioso, ou pelo prisma cultural e nunca – ao que parece – sob o prisma mais singelo e mais verdadeiro: como uma disputa por terra e água.

    tem uma piada – não lembro de quem, talvez eu tenha inventado – que comenta mais ou menos o seguinte: com certeza teu vizinho não tem nenhum direito de entrar no teu apartamento duplex e te dar um tiro no pé. mas também, perceba, ele não entraria na tua casa e te daria um tiro no pé se tu não forçasse ele viver no corredor do prédio, junto com mais quinze famílias, com água e comida racionada, e proibido de ir e vir sem tua permissão.

    e daí concordo com o Zizek num ponto que nem é propriamente dele, mas que ele se apropriou como bandeira: a forma de colocar a questão já é parte da solução – ou o problema inteiro.

  2. Paulo Fernandes Says:

    Não vou falar muita coisa, que passei a tarde escrevendo sobre isso… mas isso tudo me fez ter uma, acredito, epifania do lado positivo da crise financeira:

    Os EUA sem dinheiro, a crise financeira atingiu justamente os senhores de wall street e do sistema financeiro mundial. Manter uma política e um Estado em constante estado beligerante exige dinheiro, porém, não há mais dinheiro.

    E agora Israel?

  3. ok
    mas pra mim isso de só termos achado realmente horrível quando foi publicado nos “nossos” jornais é ainda mais trash, pq tiramos SEQUER o direito de réplica, compreendem?
    vocês serão vilipendiados em uma guerra entre forças não equilibradas e vcs conhecerão lugares sci-fi como guantanamo, o mundo não vai fazer nada. vocês vão falar sobre tudo isso, o mundo vai fingir que não ouve. nosso triunfo final será que vocês só serão finalmente ouvidos quando nós falarmos exatamente as mesmas coisas.
    o quanto as coisas precisam se repetir pra mudar? desculpe, talvez essa pergunta TENHA resposta, diferente de todas as outras na vida. as coisas não mudam. os chineliados NUNCA são ouvidos, nem agora, na época do excesso de informação. a ilusão da época do excesso de informação é que não queremos a maior parte da informação que temos, a menos que seja filtrada até os nossos ouvidos/olhos/oquefor, acho.
    isso pra mim é aquele pesadelos clássico, onde estamos sendo seguidos e sequer conseguimos gritar.
    me fode demais, é meu novo Hotel Ruanda em capacidade de destruir minha crença na humanidade.

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