Um Adeus Português

Daí que eu coloquei logo abaixo um poeminha pequeno do Cesariny que muy me agrada e pensei: pobre O’neill, injustamente sempre na sombra do Cesariny. Sim, eu penso que injustamente. Pra mim foram os dois no mesmo nível, igualmente, expoentes e genios do surrealismo portugues.

Enquanto o Cesariny tem poemas geniais, brutais, cortantes, o O’neill vai por outro lado, mais português bucólico. As vezes ele chega a ser cafona, mesmo, mas quando não é, é de uma delicadeza que nos toca a alma como só um bom poeta consegue.  POETA, PIPOL.

E daí eu pensei ca comiga se colocava aqui meu poema favorito dele ou o hit dele e achei que deveria colocar o hit. Meu poema favorito é sobre Portugal e eu, que nunca estive la mas ja li tanto e tanto que fundei uma imagem de Eldorado gore na mente e de repente aquele sentido e aquele sentimento são interessantes só pra mim, ainda mais pelo momento e tudo.

E esse poema tem uma história tão horrível. Ele, o O’neill tinha esta namorada e ela era inglesa e ele portugues e era a época do salazarismo e eles tentaram os dois ir embora pra Inglaterra (e isso é tão portugues, ainda assim) e ele nunca conseguiu, era salazarismo e ele tinha o passado negro da poesia de guerrilha e tudo mais. E ela não pode mais ficar e eles se separaram. E ele escreveu esse poema e foi um hit, o hit dele.

E o poema não deixa de lado os temas constante dos grupos: crítica política, realidade nacional, individualidade, pequenos e grandes mitos. E lendo sentimos o sufocamento.

Mesma coisa que com Drummond: esqueçamos o mundo. Inspira, expira:

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensangüentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O’Neill

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