#i

Dois mementos momentos:

Melhor dos sonhos possíveis: Minha avó, uma senhora de pele muito escura, meio cigana, com longa cabeleira desgrenhada, roupas velhas, me recebe na beira da estrada com um sorriso. Eu mostro minha mão e suas linhas para ela e digo que minha linha de vida é curta, quero confirmação. Ela tem mãos muito grandes e escuras e macias. E totalmente lisas. Sem nenhuma linha. E me explica que o que somos, fomos, seremos se confunde e some  quando conquistamos o tempo. Não pela juventude eterna, não por nada frugal desse tipo. Ela se aproxima do meu ouvido, me explica o motivo real, sorrio e a beijo. Ela me mostra minha mão, que já vai perdendo suas linhas. Acordo ofegante. Desculpem, não posso dividir.

Momento posteridade na cara:

Canto Esponjoso

Bela
esta manhã sem carência de mito,
E mel sorvido sem blasfémia.

Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.

Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.

Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.

Carlos Drummond de Andrade

2 Respostas to “#i”

  1. uh.
    na medida exata.

  2. concordo.
    e me calo, repleta.

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