Centro

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Eu nunca gostei muito do Centro de Porto Alegre. Mas, depois da epifania Forrest Gump, ele mudou para mim.

Muita gente que eu conheço e respeito curte o centro por motivos bem diferentes dos que eu vou citar. Pela história, os prédios, lembranças afetivas, luzes poéticas, enfim.

Eu sempre chamei o centro de Império dos Sentidos. Impossível dar dois passos sem levar duas lufadas de odores extremamente fortes. Tudo fede, todos são horríveis, tudo é sujo e cheio de gente. Eu não gosto de ficar em lugares amplos e cheios de pessoas. Eu não gosto de excessos de odores. Eu não gosto de tocar em coisas e sentir gosma de mão (o TOC venceu).

Mas agora eu aprendi a apreciar o centro. Exatamente por isso. Porque ele é feio e excessivo. E enquanto eu me sento na minha assepsia cotidiana e brinco de esquecer a violência que é existir, o centro nunca esquece. Toda esquina fede a mijo centenário.

Um dia eu simplesmente não consegui dormir direito. Estava com a cabeça tão acelerada que, no lugar de ir pra aula, comecei a andar. Sem pensar pra onde tava indo. Sem poesia aqui, a sério. Fui pro centro. Depois fui pra outros lugares, andei por quatro horas sem parar, mas sempre voltei pro centro. Porque tinha alguma coisa no centro que diminuía o caos que estava na minha mente. E daí eu entendi porque tantos mendigos chamam o Centro de Noruega. Se eu sumir, me procurem no Centro. Possivelmente envolta em uma bolha, mas no Centro. Hshshshs.

O centro tem seus próprios costumes, modas, dialeto. Com o fim do VT, o centro perdeu sua moeda corrente, mas boto fé que inventara algo novo em breve. (Pra quem não é de PoA: aqui tinhamos vale de ônibus que eram fichinhas, aceitas para tudo no centro: comida, roupa, cigarro, TUDO MERMO. Agora foram substituídas por uma carteirinha e o encanto acabou. Acho triste). Hoje mesmo fiquei assistindo enquanto Lemmy vendia uma colar de colocar crachá para um skatista genérico e soube: colar de colocar crachá ta bombando no centro.

Dentro dos bairros alguns lugares tentam reproduzir esta mística Gummo de ser. Pedacinhos de Saigon, que são. Como o Pik Xis, antigo núcleo da resistência ao bom gosto e modos aristocráticos, atualmente abandonado pelo pessoalzinho mas sempre no coração de seus nativos.

Eu, como criadoira e expoente máqsimo (perdendo, talvez, para Mox) do movimento/grife Sebowear finalmente saio do armário e grito, plenos pulmões: CENTRO É GLAMOUR DE DEGREDO.

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3 Respostas to “Centro”

  1. Porra, adoro catarses urbanas
    Bela epifania, morena

  2. eu morei na Salgado Filho!

    isso é loucura! isso é blasfêmia!
    isso é… ESPARTA!

  3. certo, deve ser bem parecido
    sistema de esgoto a céu aberto, coisital
    hshshshshs

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