Epílogo

(reposto atendendo a pedidos, especialmente os meus. hshshshs. esqueci de agradecer pra feeder mais linda do país: Fabre, ailoviuforévis, mulata)

Eu não sou palhaça de transcrever esta coisa toda, na boa. É gigante. Mas eu e Luanita estavamos falando e eu disse pra ela que sempre que eu fico do outro lado do rio eu leio isso pra manter em mente coisas que prometi nunca mais tirar.

Como pessoas usam religião de um jeito escroto, como pouca gente repassa sentimentos bonitos e como as pessoas são incapazes de ver o outro. E quando veem, cagam pra isso. Sério, pode ser tudo muito cafona, muito blabla, mas doença é doença e vice-versa. Energia, carma, força de vontade de cu é rola.

Mas, de toda forma, aqui estamos todos reunidos e onde mais de um se reúne, sacumé, rola um pacto de não-suicídio. E eu sempre muito temerosa de falar disso já que nada pode ser mais íntimo e intimidade me da um medo tão grande. Um dos motivos, certamente, é que quando eu estive no pior dos piores momentos eu vi como as pessoas são escrotas sem precisar tentar. Então resolvi me poupar.

Mas, issae, roubei de alguém que roubou da médica maluca poética de elite. Eis o que eu leio toda noite antes de dormir quando estou do outro lado do rio (não que esteja agora, mas se você estiver, EU ME IMPORTO, OK? DE VERDADE. E NÃO SOU A ÚNICA. BEEEEIJO):

Muitas vezes me perguntei se optaria por ter a doença maníaco-depressiva, caso pudesse escolher. Se eu não dispusesse de lítio, ou se ele não funcionasse no meu caso, a resposta seria um simples “não” – e seria uma resposta impregnada de horror. No entanto, o lítio funciona no meu caso; e, por isso, suponho que possa me permitir essa pergunta. Por estranho que pareça, creio que optaria por ter a doença. É complicado. A depressão é apavorante demais e não cabe em palavras, sons ou imagens. Eu não gostaria de voltar a passar por uma depressão prolongada. Ela exaure os relacionamentos através da suspeita, da falta de confiança e do amor-próprio, da incapacidade de aproveitar a vida, de caminhar, conversar ou raciocinar normalmente, da exaustão, dos terrores noturnos, dos terrores diurnos. Não há nada de bom que se possa dizer da depressão, a não ser que ela nos dá a experiência de como deve ser a velhice, ser velho e doente, estar à morte; ter a mente lerda; não ter elegância, educação ou coordenação; ser feio; não acreditar nas possibilidades da vida, nos prazeres do sexo, na perfeição da música ou na capacidade de provocar o riso em nós mesmos e nos outros.

As outras pessoas insinuam que sabem como é estar deprimido porque passaram por um divórcio, perderam um emprego ou romperam relações com alguém. A verdade é que essas experiências trazem consigo sentimentos. Já a depressão é neutra, oca e insuportável. Ela é também cansativa. Ninguém aguenta ficar ao lado de quem está deprimido. As pessoas podem até achar que devem ficar, e podem até tentar, mas você sabe e elas sabem que você está incrivelmente chato: irritável, paranóico, sem senso de humor, sem energia, cheio de críticas e exigências, e nenhum tipo de esforço para reanimá-lo jamais é suficiente. Você está assustado e está assustador. Você “não está nem um pouco parecido consigo mesmo, mas logo vai estar”, só que você sabe que não vai.

E então por que eu iria querer ter alguma coisa a ver com essa doença? Porque acredito sinceramente que, em conseqüência dela, senti mais coisas e com maior profundidade; tive mais experiências, mais intensas; amei mais e fui mais amada; ri mais vezes por ter chorado mais vezes; apreciei mais as primaveras apesar de todos os invernos; vesti a morte “bem junto ao corpo como calças jeans”, aprendi a apreciá-la, e à vida, mais; vi o que há de melhor e mais terrível nas pessoas e aos poucos aprendi os valores do afeto, da lealdade e de ir até o fim. Conheci os limites da minha mente e do meu coração, e percebi como os dois são frágeis e como, em última análise, são incognoscíveis. Em depressão, engatinhei para poder atravessar um quarto e fiz isso meses a fio. No entanto, normal ou maníaca, corri mais, pensei mais rápido e amei mais do que a maioria das pessoas que conheço. E creio que boa parte disso está relacionada à minha doença – à intensidade que ela confere às coisas e à perspectiva que ela me impõe. Creio que ele me faz testar os limites da minha mente (que, embora deficiente, está firme) bem como os limites da minha criação, família, formação e dos meus amigos.

As incontáveis hipomanias, e própria mania, todas trouxeram para minha vida um nível diferente de sensação, sentimentos e pensamentos. Mesmo quando mais psicótica – delirante, alucinada, frenética – estive consciente da descoberta de novos recantos na minha mente e no meu coração. Alguns desses recantos eram incríveis, lindos; tiravam meu fôlego e fizeram com que eu sentisse que poderia morrer ali mesmo que as imagens me sustentariam. Alguns deles eram feios, grotescos. Não quis nunca saber que eles existiam, nem vê-los de novo. Sempre, porém, havia aqueles novos recantos; e – quando me sinto normal, devendo essa minha identidade à medicina e ao amor – não posso imaginar que me torne indiferente à vida, porque sei desses recantos sem limites, com seus panoramas sem limites”.

P.s: Em tempo, eu não acredito nesta palhaçada de ser especial pelo horror. Somos especiais, como todos os seres, mas esse nem é um motivo válido para argumentação. Eu acredito no que minha ermãzinha escreveu:

Meu bem, não é cool ser bipolar. Não é nada cool. Vamos acabar com  esse hype sem sentido de querer ficar sendo bipolar pela estrada afora. Ser doente não é cool. Sem essa de todo mundo é um pouco bipolar. Bipolar é bipolar e é doente e quem é bipolar troca o hype por um não-transtorno e dez real. Chega. Obrigada.

DÉRREAU.

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4 Respostas to “Epílogo”

  1. cabeça vazia é a casa do diabo!

  2. movimento DÉRREAU E UM VT
    hahhahahahaha

  3. sdasadjhasdkjhsakdjhsadkj

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