Jean-Baptiste Grenouille

Algumas coisas são pra sempre. Bem poucas, é verdade, e raramente as que imaginamos quando queremos nos sentir humanos. Pra mim, Jean-Baptiste é eterno.

Este livro chegou pela primeira vez até minha nobre pessoinha quando a mãe do meu irmão mais novo começou a ler e não conseguiu, disse que achou tão nojento que sentia vontade de vomitar constantemente e teve que parar. Por algum motivo bizarro (basicamente descobrindo isso eu entenderia quem eu sou) este relato dela me pareceu muito atraente e, quando ninguém estava vendo, peguei o livro e comecei a ler. Saindo da casa deles, levei o livro comigo para terminar. E quando terminei não consegui devolver, li de novo. Depois de algum tempo da segunda leitura, voltei e li meus trechos favoritos. E assim forévis.

Não me senti próxima do Grenouille, mesmo que tenha me identificado com a paixão que ele nutria por odores. Mas eu sabia que ele era um escroto, não me identifico com isso, ou com os aspectos melancólicos da personalidade dele. Eu fiquei obcecada pq, além de ser um livro primoroso, era um livro sobre odores.

E assim (com uns 12-13 anos, possivelmente), eu aceitei como normal brincar de perfumista pelas ruas. Hshshshs.

Mas eu queria falar do filme. Quando fui ver este filme pela primeira vez senti muito medo, pq Grenô é eterno, pra mim. Kubrick queria ter adaptado, mas acabou dizendo que isso era impossível. E, vendo a versão que chegou aos cinemas, eu agradeci ao Olimpo por isto.

O grande problema das adaptações é que são adaptações. É quase tão difícil quanto ser perfumista fazer uma coisa sair de seu meio para outro que é, basicamente, o oposto, com dignidade e força. Especialmente para pessoas que já tenham lido o livro e, como eu, lembrem dele em um filme mental (onde não existe limite de orçamento). Mas este filme consegue e de forma primorosa. E me sinto inclinada a esfregar estrume na cara de quem disser o oposto.

Além de tudo, o filme tem a coreografia de uma cena deveras relevante assinada pelo Fura.

Então, se eu fosse tu eu veria o filme com ardor. Hshshs.

Minha edição do livro, aquela que eu roubei sem maldade, foi roubada (com ou sem maldade eu não sei). Eu tenho só uma genérica de balaio, mas cito um dos pedaços, bem do começo, que eu nunca consegui tirar da mente e, vendo no filme, parecia com a primeira vez que tinha lido.

A mãe de Grenouille queria que tudo já tivesse acabado. E quando as dores se tornaram mais intensas, ela se acocorou debaixo da mesa de limpar peixe e pariu, como já das quatro outras vezes, e cortou com a faca de peixe o cordão umbilical dessa coisa recém-nascida. Em seguida, porém, por causa do calor e do mau cheiro, que ela só percebia como algo insuportável – como um campo de lírios ou um quarto estreito em que haja narcisos demais -, ela desmaiou, caiu de lado, resvalou de debaixo da mesa para o meio da rua e lá ficou, com a faca na mão.

(…)

Nesse instante, contrariando as expectativas, a coisa recém-nascida começa a chorar debaixo da mesa de limpar peixes. Procura-se, encontra-se um bebê num enxame de moscas e entre vísceras e cabeças de peixe, é puxado para fora. Ex-officio ele é entregue a uma ama, a mãe é presa.

3 Respostas to “Jean-Baptiste Grenouille”

  1. O único personagem literário do mundo que honra a napa que tem…

  2. engraçado que há dois dias atrás eu disse pro milton: preciso ver esse filme… mas, antes, quero ler o livro. ele me ignorou, hehehehe, como na maioria das vezes! hehehehe

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