O céu de Bocage

Ah, as coisas que somos capazes de pensar quando não estamos entupindo nossa mente com conhecimento inútil na wide wide world of web (copyright Joy).

Nestes últimos dias onde a NET demonstrou uma imensa capacidade de decepcionar (mesmo quando achei que não nutria mais nenhuma expectativa positiva) fiquei pensando sobre diversas coisas idiotas. Passei pelos anos 90, pelo Randal, pelo Raimundos e fui parar no Cerco de Lisboa XXX.

Talvez seja possível imaginar que só estudo Letras pra poder falar de pornografia livremente, o que é quase o caso. Um dos problemas de se falar sobre pornografia com alunos de letras é que eles se dividem entre os muito intelectualizados para isto e os muito religiosos para isto. E eu, com minha docilidade, estou no seleto grupo dos que não acreditam na existência do erotismo senão como desculpa de onanista que se acha acima destas coisas.

Por outro lado, ao longo dos inúmeros autores que li pra tentar embasar o que penso (que é o que se faz num curso de letras, afinal, achar alguém que embase o que tu pensa- mas, ei, isso é delliro), não descobri um só que pensasse como eu. O que descobri: Erótico, de Eros, associamos com putaria com sentimentos nobres e Pornográfico, de porné (prostituta) associamos com putaria, somente. Putaria com o intuito de gerar putaria, aliviando nossa energia primitiva e nos tornando mais polidos e cheios de sentimentos nobres.

Para começar a conversa cito dois poemas, um de uma antologia de poesia pornográfica e um de uma antologia de poesia erótica. Ambos os prefácios dizem mal do gênero oposto, agora leia e tente entender. E, admito, escolhi de forma totalmente randômica.

um pedaço de uma poesia chamada de erótica, do delicado Aretino:

Não se perturbam por estar cansados

Mas o jogo lhes dá ardência tanta

Que fodendo queriam-se finados.

agora um pedaço de uma poesia chamado pornográfica, do doce Bocage:

Fiado no fervor da mocidade,

Que me acenava com tesões chibantes,

Consumia da vida meus instantes

Fodendo como um bode, ou como um frade.

Preciso dizer que acho repulsivo o uso do termo erótico. Além de ser, quase sempre, inadequado. E acho contraditório quando leio que a, por exemplo, poesia pornográfica visa excitar sexualmente o leitor enquando a erótica não. Se um leitor se excita com uma, se excita com outra (vide exemplos randômicos acima). E é um leitor deveras onanista, nada contra, cada um com seus problemas. Não acredito que esta seja a diferença real entre uma e outra, sinceramente. Aceitar isso seria aceitar que video-games violentos nos deixam com impulsos violentos, na minha cabeça. Que seria, por decorrência, como aceitar que Wii Golfe nos transforma no Tiger Woods.

Aceito, sim, que as poucas diferenças que existem, em alguns casos, e tornam a poesia pornográfica infinitamente superior, são de linguagem (Ah a vulgaridade, uma construção das mais fremosas) e de estilo. E por estilo eu quero dizer que quando uma reprime a outra mostra, mesmo que ambas digam o mesmo. O que faz dos dois exemplos mais pra cima pornografia inquestionável.

Mas, ai, ha quem goste de Balzac com suas metáforas explícitas e longos relatos arquitetônicos (Paulo, CA. Hshshshs). Para os sutis eu deixo Vinícius, pópega, poetinha.

Por outro lado qual a finalidade de uma produção artística? Eu não faço a menor idéia (Marx da uma luz neste post sublime do Frugal), mas o que sei é que não é a mesma de viver. Ie, lemos poemas de guerra e isso não é o mesmo nem nos torna aptos para sair combatendo Tróia por conta de uma fruta. Portanto, lemos poesia que emula sexo, mas isso não é o mesmo que fazer sexo. Ie, ela não tem como função nos sexualizar mais que um poema de guerra tem por função nos deixar belicosos. Se isso ocorre, e ocorre mais com a pornografia que com a guerra, é pq somos socialmente mais belicosos que putanheiros. E isso é deprimente.

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4 Respostas to “O céu de Bocage”

  1. miséria pouca é Bocage

  2. Gostei, volta aqui mais vezes :)

  3. Em vez de fazer um novo, reavivei o antigo: http://hiresheglan.blogspot.com/
    =*

  4. onan é bom
    até pessoas casadas merecem praticar onan

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