Me coloniza que eu gosto

Ontem fui ver o Soleil (não pagaria pq acho absurdo demais coisas que custam quase um salário mínimo, tenhamos noção, pessoas).

Não posso nem quero desmerecer o trabalho do circo nem a importância que eles tem pros novos circos do mundo. E não pretendo comentar a experiência de ver um negócio pelo qual nutro sentimentos que passam por admiração e horror (especialmente das trilhas sonoras estilo Enya) já que não sou a Heliodora (por jesusa).

No entanto, toda a grandiosidade do evento me fez pensar ainda mais sobre meus conceitos de Albânia Tropical.

Começando pelo dinheiro gasto. Os ingressos todos sabem que são absurdos, mas até as camisetas são caras. Eu só compraria uma camiseta de 70 reais se ela viesse com um vale brinde de, no mínimo, 30 pila. Hshshs (e não vamos esquecer que pagamos tudo isto pra servir de outdoor de uma coisa). O estacionamento (que não dá nota fiscal) é 20 reais. Vinte reais pra deixar um carro em um terreno baldio aplainado.

Faz algum tempo leio sobre como a idéia do luxo relacionado aos preços exorbitantes está em declínio, que é uma coisa relacionada, claro, com os problemas financeiros que os americanos enfrentam. Mas que se desdobra em querer encontrar novos conceitos de luxo, menos agressivos ao mundo e aos moradores do mundo.

Por exemplo, a mulher que todas as meninas idiotas seguem, a Parker, apareceu em um super evento com um vestido de menos de 10 dólares. Ela, um ícone das grandes marcas, disse que a moda agora é ser inteligente com seu dinheiro. O vestido não era feito com mão de obra barata nem nada, só era de uma loja que criou seu descolismo através de uma margem de lucros menor, especialmente dos grandes cargos. Agora os ítens caros só fazem sentido quando são artesanais, ie, expressam tua crença na individualidade e na liberdade pessoal. Hshshsh. Então uma bolsa de marca é, finalmente, vista como deveria ser: um item cafona.

De toda forma, é difícil imaginar um evento desta proporção no Brasil. Mas não só pq o governo canadense deve ser um incentivador melhor que o nosso, também pq o povo canandense deve ser um incentivador melhor que o nosso. Nenhum brasileiro pagaria 300 reais pra ver o trabalho de outro. Nem deveria, pq 300 reais é quase o salário de uma professora estadual. Mas eles pagam pelo Soleil, então pq não pagam por nada nacional?

Nós fazemos isso pq achamos que nosso trabalho não vale nada, em um ciclo masoquista, onde continuaremos sendo mão-de-obra barata pq pensamos assim. Especialmente trabalho artístico. Esse sim não vale porra nenhuma MESMO e todos sempre querem ganhar convites, livros de presente, etc. Como que pra deixar claro que não pagaram, ie, não incentivam a produção de cultura nacional, deusulivre.

Eu tenho amigos e conhecidos que nunca foram ao circo que eu defendo com fervor familiar e cujo ingresso é cerca de 1/10 dos canadenses (ou em qualquer outro circo. Ou ao teatro), mas compraram ingressos para o Soleil na primeira semana. O que eles esperam ver lá que não esperam ver aqui? A grandiosidade importada. E sairão dizendo que é ótimo não por terem achado, mesmo, muito bom. Mas sim pq viram algo que, eles acreditam, esta credenciado como algo luxuoso, ie, querem fazer a fina, amigos. A maior parte deve ter sido lobotomizada pela propaganda irritante que passava sem parar já que, antes disso, nem sabiam que os porras dos canadenses existiam.

A Terra Brasilis são os outros.

4 Respostas to “Me coloniza que eu gosto”

  1. isso que tu falou eh fato mesmo.
    mas o que mais gostei foi de comprar uma camiseta por 70 mango e ganhar um valeu brinde de 30 mango. rsrsrsr – :)

    ps: vi um video do solei na semana passada e não paguei nada. rsrsrsrssrs.

  2. Só pra dar lastro histórico ao post:

    “Os cantores ainda não deram amostra, já não digo de uma nota, mas somente de um espirro ou de um aperto de mão, e já os bilhetes estão todos tomados, a preços de primíssimo carteio.
    Donde os filósofos podem concluir com segurança que as vozes não são a mesma coisa que os nabos. Credo, quia absurdum, era a máxima de Santo Agostinho. Credo, quia carissimum, é a do verdadeiro dilettanti.
    Ao preço eleveado dos bilhetes corresponde os dos vencimentos dos cantores. Só o tenor recebe por mês oito contos e oitocentos mil-réis! Não sei que haja na crítica moderna melhor definição de um tenor do que esta dos oito contos, a não ser outra de dez ou quinze.
    Que me importa agora ouvir as explicações técnicas dos críticos para saber se o tenor tem grande voz e profundo estudo? Já sei, já o sabemos todos: ele tem uma voz de oito contos e oitocentos; devo aplaudi-lo com ambas as luvas, até arrebentá-las.”

    Machado falando de uma companhia argentina que fazia estrondo no Rio; 1 de agosto de 1876.

  3. eis que surge a gíria arrebentar as luvas
    hshshshshhs

  4. ei, fecho contigo, mariri!
    não pago e vão se foder!

    mas estou afins de ir mais ao teatro esse ano. acho que vou no édipo do alabarse nesse finde, tu te pilha?

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