Chronos in Uranus

mh-saturno

Segundo a lenda Chronos cortou os genitais do pai, Uranus (que não ganhou o nome a toa, pelo visto), e engoliu os próprios filhos. Toda esta fúria implacável do senhor do tempo só pôde ser detida pela malemolência de seu filho mais novo, Zeus, ajudado pela mãe (no caso a esposa de Crono), Réia. Freud chora mas, mais que isso, o mundo dos devotos do hellenismo agradece pela substituição de um tirano canibal por um tirano putanheiro.

Depois de, sempre auxiliado por mulheres, libertar seus irmãos e criar um novo reinado mais belo e malandro, Zeus passou a se dedicar a encontrar novos métodos de fertilização, como chover no molhado e afogar o cisne, se é que o nobre leitor está por dentro do que digo.

Para os leigos e temerosos, a astrologia jura que Chronos tem um presente reservado para todos nós e ele se chama: retorno de saturno. Neste período, seremos capazes de vivenciar nossa própria titanomaquia, descobrir qual divindade do Olimpo devemos seguir e se vamos, afinal, cume acima ou abaixo. Segundo meu amigo-dionisíaco, Jão, é aí que descobrimos com o que temos que nos comprometer pois surgem nossos primeiros fios grisalhos e nossas artrites e se, nem assim um sujeito é capaz de se comprometer com a vida, merece mesmo morrer. Nada é mais comprometido que morrer.

Mas como sobreviver aos amargos presentes que nos reserva Chronos? No início só conseguimos reagir com horror: como assim ele cortou as bolas do próprio pai com uma foice? Que tipo de divindade faria isso? Depois de um pouco de reflexão, a pena: ele sofria abusos em casas. Até a descoberta: uma natureza implacável como esta só pode ser vencida pela inteligência malandra. Claro.

Hoje eu passei por um momento catártico. Andava tão reprimida, encolhida, que se aceitasse internalizar mais alguma coisa, virava uma supernova, explodia. Então eu estava em um ambiente hostil e decidi que não queria aquilo. E me comprometi com isto. Em não ser o que não quero por uma pressão externa que eu sequer respeito ou concordo.

Foi aí que o tchutchuco do Dionísio dançou na minha cabeça e me disse: a melhor maneira de não conseguir o que não se quer é se divertir e ser brutalmente sincero. E eu fui. Nossa, me diverti. Eu gosto de literatura medieval e não estou nisso pelo glamour pelo simples fato de que ODEIO glamour (nota mental: preciso fazer as pazes com Afrodite, a deusa do glamour e da libação em glitter). Pareceu pouco. Então aquele exagero que costumamos, nós os bizarros (e demais degredados), fazer para conseguir algo, eu fiz ao oposto. Pela primeira vez na vida pude ser mais estranha que sou em um ambiente que me obriga, em teoria, a simular o oposto. E, voilá. Me libertei.

Sim, eu venho de uma família-de-circo, como se o subtexto fosse: nos imagine como ciganos de histórias preconceituosas (nem entrarei no meu parentesco cigano e/ou pirata. Hahahah), carregados de bagagens, o cheiro de merda de elefante, três dias que não vemos banho. Mas seguimos, esta é nossa sina. Meu número de força capilar já foi um sucesso, mas o público não gosta mais de ver estas coisas, por isto meu tio que engolia facas e não superou a fase oral se afundou no álcool. Tudo isso num olhar alucinado de NÃO ME ACEITE, EU NÃO QUERO SER ACEITA POR PESSOAS COMO TU JÁ QUE SIM, TU TÁ CERTO, NÃO SOMOS IGUAIS.

Então acho que neste pequeno evento, que redesenha a história das piores reuniões desde que o homem ficou em duas patas, eu me comprometi comigo em definitivo. Foi massa. Todos deveriam tentar. A vida enquanto performance. Até pq, como diria Gogol: I make a better rock revolution, alone with my dick. Não, não o Gogol, o Gogol Bordello (ora, pois, como se o Gogol#1 tivesse adereços como o supracitado).

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